São João e o McDonald’s
(08/06/2025)
Ontem cumpri o ritual de pai: fui à Festa Junina do colégio de meu filho Erik, de dez anos. Mas foi bom. Ele se divertiu, interagiu, dançou. Eu também. Só não dancei quadrilha, claro…
Mas observei, pensei, e agora escrevo a crônica sobre o fato (tudo é material para o cronista, você sabe). Afinal, celebrar São João num colégio britânico agnóstico instalado em São Paulo, é mais do que uma curiosidade – é uma aula de antropologia ao ar livre.
Justifico: a festa junina, que hoje associamos a santos católicos, começou como celebração pagã ao solstício de verão no hemisfério norte. A Igreja, com sua diplomacia peculiar, cristianizou os rituais e os anexou ao calendário: São João, São Pedro, Santo Antônio.
A festa cruzou oceanos, se ajustou ao calendário religioso local, ganhou sotaque nordestino e figurino caipira. Foi parar no calendário de todas as escolas, e eu vi um menino pedindo mais
canjica em inglês, e ouvi sanfona solando com teclado eletrônico.
A cultura é assim: camaleônica, mas teimosa.
No Brasil a festa se aclimatou: trocamos o verão pelo inverno, e as danças dos campos viraram quadrilhas. No interior de São Paulo, surgiu o caipira estilizado, com bigode de rolha e sotaque puxado. No Nordeste virou arte popular. Caruaru e Campina Grande disputam quem celebra melhor, e maior.
Algumas festas têm caráter mundial, mas as celebrações são locais. É a cultura se adaptando para sobreviver.
O mesmo acontece com a cultura das organizações. Como sabemos, a cultura é um patrimônio valioso e o recurso mais importante para a estratégia de uma empresa.
Mas uma empresa multinacional vive um paradoxo: precisa manter viva sua identidade, feita de princípios e valores, e, ao mesmo tempo, deve respeitar e absorver os códigos da cultura local.
De fato. Coca-Cola não tem o mesmo gosto na Índia. O McDonald’s da França serve vinho e no Brasil virou Méqui. E uma escola inglesa em São Paulo celebra São João, mesmo com fogueira de LED.
A força de uma cultura não é algo a ser desprezado. É como a raiz de uma planta: invisível, mas essencial. E quando uma nova semente chega ao solo, ela precisa negociar espaço com o que já está ali – adaptar-se sem perder a essência.
Há quem se orgulhe de “ser autêntico”, e “ser assim mesmo”, na mais explícita representação da síndrome de Gabriela. Acaba se tornando um chato inconveniente. Adaptar-se não significa deixar de ser quem se é, mas respeitar como é o espaço em que se está.
A quadrilha é coreografada, mas a vida não. Saber dançar com o outro, no compasso dele, talvez seja a forma mais elegante de existir e conviver. E viva Saint John!
