# 78 – Saudade(s)

# 78 – Saudade(s)
Saudade(s)
(19/01/2025)

Para começo de conversa, este é um substantivo abstrato, então não se flexiona. Não existe singular e plural. 

Você não sente uma saudade ou duas saudades. Tanto faz. Só precisa ser coerente com o artigo, o verbo ou o adjetivo que você usou. Diga “sinto muita saudade” ou “sinto muitas saudades”.  E seja feliz, sentindo o que sente… 

Agora, se a palavra não se flexiona, o sentimento é totalmente singular. Único. Sem sinônimo. Saudade não é nostalgia. Saudade alegra, nostalgia entristece. 

Homero falava da nostalgia dos guerreiros lá em Troia como um sofrimento (“nostos” = “volta ao lar”; “algos” = “dor”), pois eles sabiam que não voltariam.

O nostálgico está apegado ao passado, romantiza as lembranças, sofre pela ausência do ausente. O saudoso se alegra com a lembrança, e se alegra com a sensação que a lembrança causa. 

Saudade é uma palavra sem tradução. Não me venha com “miss you”, “te echo de menos” ou “tu me manques”. Ou, pior, “Ich vermisse dich”.   

Com todo o respeito por Shakespeare, Cervantes, Proust e Goethe, faltou para eles o romantismo da palavra que Camões usou tão bem. Foi ele que disse: 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

Não é maravilhoso? Que o mal fique na lembrança, e que o bem se transforme em saudade.  

Saudade não é uma mera lembrança, muito menos um lamento. É uma ponte entre o que foi e o que permanece, mesmo que invisível. É um sopro do passado que nos visita no presente, carregando aromas, sons e sentimentos. E é muito bom.

Talvez o maior mistério da saudade seja a sua capacidade de ser universal e, ao mesmo tempo, profundamente pessoal. Cada um carrega um inventário único de saudades, e, ainda assim, todos conseguimos nos conectar por meio dela.

Saudade é um privilégio de quem viveu algo digno de ser vivido e, principalmente, de ser lembrado. 

Que você tenha um ótimo domingo e uma semana produtiva!


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica