# 69 – Sem tempo para a angústia

# 69 – Sem tempo para a angústia
Sem tempo para a angústia
(17/11/2024)

A crônica #69 tinha outro título. Mudei agora, antes de mandar.

E também tinha outra temática. Era sobre as obras inacabadas de Michelangelo, e sua obsessiva perseguição do perfeito. 

Publico outra hora…

Mudei para este inspirado por uma foto que recebi hoje às 4:57, acompanhada pela mensagem do título acima. A foto é da Rosa Maria sorrindo animada na concentração para a largada da Maratona de Curitiba 2024. Em uma postagem no Instagram, após pegar o kit da corrida ela aponta para a marca dos 10k que fará, e comenta que há quatro anos não correria da sala para o quarto. 

E agora estava lá, antes do sol nascer, ao lado de mais de 13 mil atletas verdadeiros, pronta para as dez mil passadas, para acelerar o coração, para aumentar a troca de O2, e para lançar no sangue torrentes de endorfina, serotonina e dopamina e animar todas as células de seu corpo saudável. 

Com vários motivos para render-se à autopiedade, ao vitimismo e ao inferno existencialista, ela preferiu comprar um tênis de corrida, que, muito mais que um calçado, é o símbolo de uma decisão.       

Psicanalista, de angústia ela entende. 

É aquele sentimento de desconforto, inquietação e opressão, que aperta nosso peito, e em geral não sabemos por quê. E então procuramos as causas e os culpados. E os encontramos, claro. Quem procura, acha… 

A partir de então, estamos livres da culpa, pelo menos. Achamos a quem culpar. A partir de agora, só preciso me ocupar em sofrer…

Sartre disse que o ser humano está “condenado a ser livre”, e Kierkegaard chamava a angústia de “tontura da liberdade”. 

Segundo o filósofo dinamarquês, a angústia não tem origem no precipício que está à nossa frente, e sim na consciência e que cabe a nós pular nele ou evitá-lo. Eis nossa liberdade…

E ela nos causa tontura porque junto vem a responsabilidade de exercê-la. E isso, além de dar trabalho, me tira o status de vítima, que tem lá seu (mórbido) conforto. 

Mexer o corpo, sair para caminhar ou correr dá preguiça, eu sei. Nosso corpo quer economizar energia, não gastar. Mas amarrar o tênis não é apenas o pressuposto da atividade física. É uma ordem de silêncio às vozes internas que sussurram dúvidas e inseguranças, reverberando angústia e dor. 

Felizmente há quem reage a dá exemplo. Pela Rosa Maria tenho profunda admiração. Além, de outros sentimentos…    

Um ótimo domingo e uma produtiva semana a todos!  


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica