# 74 – Ser feliz no Natal?

# 74 – Ser feliz no Natal?
Ser feliz no Natal?
(22/12/2024)

Está circulando nas redes uma antiga entrevista concedida por José Saramago a uma TV mexicana. Era época de Natal, e o Nobel português já era conhecido por sua aversão à data. 

Provocado pela repórter, ele começa explicando por que não gosta do Natal, mas acaba lançando um desafio: que não sejamos bondosos e felizes no Natal, mas que o sejamos no resto do ano. 

Saramago inverte a lógica e subverte o conceito. 

Em sua visão, o Natal não seria um momento para ser feliz, mas uma oportunidade para externar a felicidade. O mesmo com relação à bondade e ao altruísmo. 

Que não sejamos felizes e bondosos por “exigência”, mas que procuremos, genuinamente, a felicidade pessoal, e o interesse pelos outros, em nosso cotidiano, nos dias comuns da vida. 

Assim, o Natal seria um ensaio, uma oportunidade para lembrar que a bondade e a alegria são habilidades que podemos cultivar. 

O que começa como uma “obrigação” pode se transformar em um hábito genuíno, desde que não esqueçamos de praticá-lo nos dias que não contam com luzes piscando.

Charles Dickens acha que isso é possível. Em seu Um conto de Natal, publicado em 1843, ele nos apresenta o personagem Ebenezer Scrooge, um homem rico, avarento e egoísta, para quem o Natal é um desperdício de tempo e de dinheiro. Mas eis que, em uma noite de Natal, ele é visitado por três espíritos. 

O primeiro é o espírito dos Natais passados, que o leva a recordar a tristeza e a melancolia vividas anteriormente por ele. O segundo foi o espírito do Natal presente, que lhe mostra a felicidade e a paz em comemorações natalinas em casas de “famílias normais”, incluindo seus empregados, que levantam um brinde e desejam paz a seu patrão. E o terceiro é o espírito dos Natais futuros, através do qual ele vislumbra que as pessoas não lamentarão sua morte e não sentirão sua falta.

Scrooge muda seu olhar sobre o Natal. Ele passa a considerar a data como um símbolo das possiblidades do humano. Os espíritos do Natal o transformam em uma pessoa melhor. 

O conto de Dickens já foi analisado sob vários aspectos, e sofreu inúmeras adaptações, em livros, comics, cinema e até nesta crônica. Mas, muito melhor do que analisar o conto de Dickens, é usá-lo para analisarmos a nós mesmos.   

Quem sabe o espírito do Natal possa ser menos um rótulo de dezembro e mais um convite para um ano inteiro.

Um ótimo domingo e, claro, um feliz Natal a todos!  


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica