# 44 – Tudo bem?

# 44 – Tudo bem?
Tudo bem?
(26/05/2024)

Por favor, não me pergunte se está tudo bem. Eu vou ser obrigado a mentir porque não está tudo bem. Tudo não. Nunca está. Algumas coisas estão bem, outras não. 

O “tudo” é muita coisa, não dá nem para lembrar antes de responder, então o “tudo bem” de resposta é protocolo, é burocracia social, como comentar sobre o tempo no elevador. 

Às vezes achamos que está tudo bem, até que a surpresa sai do armário, ou da moita, ou dos lábios mais improváveis. E então sentimos que precisamos da ilusão para manter o equilíbrio, mas ela passa e fica a realidade, que é labirintite, é náusea e tontura.

É incrível como nada nos pertence. A posse é outra ilusão de quem quer ganhar sempre, então tentamos marcar os baralhos com que jogamos, mas a vida sempre tem uma mão oculta. 

Um Royal Flush de ouros contra nossa trinca de noves, que achávamos que ia ganhar a mesa.  

E é melhor não jogar a chave do carro para bancar outra rodada porque se você conseguiu uma quadra de valetes, a vida vai vir com uma de reis. 

Mas não, este não é um texto queixoso nem pessimista. É apenas a reflexão de que, claro, ser alegre é melhor do que ser triste, mas que sem tristeza não se faz samba nem poesia, e que, no fim, ou é esperança ou é agonia. 

Para manter a primeira é preciso continuar caminhando, sabendo que há pedras no caminho, mas que também há contornos com belas paisagens. Basta olhar

Não há posses verdadeiras. Não há estabilidade real, chão firme de verdade. O que há são ciclos. Somos cíclicos como a água que evapora, sobe, condensa e cai. E não nos cabe interromper os ciclos, apenas tentar fechar cada um sem deixar pontas soltas. 

Às vezes respiramos fundo e concluímos os ciclos, às vezes, com pouco fôlego, ficamos pelo caminho. Mas fôlego se recupera. 

Então é melhor gostar de varrer o chão, colocar a louça no lugar, organizar os livros, montar uma nova a playlist e aprender a dançar novos passos com novos sapatos. São meio apertados, mas os velhos estão folgados demais. Melhor. Eles se ajustarão. 

Não me pergunte se está tudo bem, mas me deseje bom dia. Sorrindo. Você vai receber de volta outro sorriso, e um desejo sincero de um ótimo dia. Ou ótima tarde. Ou ótimo novo ciclo. Combinado?

Um ótimo domingo e uma grande semana!  


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica