# 102 – Um passe de calcanhar

# 102 – Um passe de calcanhar
Um passe de calcanhar
(06/07/2025)

Estou escrevendo esta crônica no domingo cedo, depois de uma semana de muito trabalho, em um projeto que só pode ser realizado por uma equipe entrosada. Na porta da sala de reuniões, um aviso: “Deixe o ego do lado de fora”.

Ainda no avião, de volta para casa, cansado, mas excitado com o final de semana que começava, assisto na TV de bordo o experiente Fluminense ganhar do valente Al-Hilal por 2×1.

Relacionar o futebol com trabalho em equipe, entrosamento, confiança, foi uma reação imediata e natural…

O Mundial de Clubes da FIFA é diferente da Copa do Mundo de Futebol. Realizada um ano antes e no mesmo país, a Copa de Clubes não reúne seleções de países, e sim times em atividade, que podem ser compostos por jogadores de diversas nacionalidades.

Na Copa de Clubes o patriotismo não quer ser o artilheiro. Os times estão representando a si mesmos, embora fique claro que eles também levantam a bandeira do país a que pertencem.

O resultado são jogos com nível técnico maior, pois os times não foram juntados às pressas e treinados em um local secreto por um técnico experiente, mas com pouco tempo para entrosar os jogadores e para administrar os egos das estrelas de chuteiras. Dá para ver que o clube é uma equipe, e a seleção é um ajuntamento.

Entre os vários momentos que me encantam em uma partida de futebol, há um em especial: o toque de calcanhar.

É um momento mágico que contraria a lógica da bola seguir o olhar do jogador. A bola não viaja para o onde o jogador que o companheiro está. Ela vai para onde ele sabe que companheiro está, mesmo sem olhar.

Talvez o mago do calcanhar tenha sido Sócrates, que, não por acaso, era um líder em campo. Orquestrava o time e tudo funcionava. E há Sócrates em muitos lugares.

Na reunião vi o CEO dizer “inclua um vídeo no lançamento”, e continuar a conversa. A diretora de marketing apenas sorriu e já pegou o celular para acionar sua equipe. Toque de calcanhar…

À noite fui para o evento de comemoração dos 92 anos da Associação Médica. Um pouco antes o presidente me liga e diz: “Não teremos o mestre de cerimônia. Você pode tomar o lugar
dele?”, já sabendo a resposta. Calcanhar…

O passe de calcanhar é a metáfora do bom trabalho em equipe um ato de coragem e confiança, que só acontece quando existe entrosamento. E que dá ao jogo, e à vida, um toque de beleza ímpar.

Ampliando a placa da porta: “O passe de calcanhar só acontece quando deixamos o ego de lado e realmente jogamos juntos”.


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica