# 39 – Uma acqua muito fresca

# 39 – Uma acqua muito fresca
Uma acqua muito fresca
(21/04/2024)

Depois de três dias na UTI, ela mostrou os primeiros sinais de recuperação. O oxigênio a manteve viva e os antibióticos começaram a ganhar a guerra.

Eu estava a seu lado quando ela abriu os olhos, que passearam por aquele entorno branco e tecnológico. Notou o bipe que avisava que seu coração seguia batendo. Ritmo bom, compassado. 

Ela havia sido uma jovem belíssima. Modelo fotográfica consagrada. Capa de revistas, personagem de propagandas, peça de exposição no Museu da Imagem e do Som.  

Sua pele de idosa ainda revela a beleza escondida para quem a observa com cuidado. Mas seus pulmões não são mais os mesmos. Reduzidos à metade, eventualmente infecionam e assustam. Desta vez, o susto foi grande.

Apertou minha mão e esboçou um sorriso que saiu fraco, mas franco. Agradecido por ainda existir.

Sem conseguir falar, fez com as mãos o movimento de quem quer escrever. Consegui uma folha e uma caneta. Entreguei-lhe. 

Não entendi os garranchos. Podia perceber algumas das letras de forma que ela desenhava: A, Q, F. O resto eram traços desconexos. Pedi que repetisse. Duas, três vezes. 

Ela quase desistiu, mas tentou de novo. Agora ficou um pouco mais claro. Parecia ACQUA. Procurei água na mesinha, mas ela fez que não com a cabeça e apontou com o dedo para o C e o Q. Ela não queria água, queria acqua. Não renunciava ao latim…

Fiquei confuso. Ela percebeu. Então bateu com os dedos nos dois lados do pescoço, girando levemente a cabeça. 

– Ela não quer água, quer perfume – disse uma enfermeira que observava a cena. 

Perfume? Ela quer perfume na UTI? Ela ouviu e balançou a cabeça em aprovação, animada. Voltou ao papel, e a caneta agora parecia desenhar um frasco redondo, em forma de ânfora. 

– Ela quer Acqua Fresca, deduziu a enfermeira, também surpresa. Então lembrei! Há décadas ela usa esse perfume. 

Ela sempre foi vaidosa. Não narcisista, mas preocupada com sua aparência. A idosa de hoje queria um pouco da beleza da jovem de ontem. Mas agora seu interesse não era mais sedução.    Era dignidade.

Fui comprar o perfume. Ela está melhor. Ainda doente, mas, quando lhe entrego o beijo do dia, sinto o cheiro da esperança. 

Um ótimo domingo e uma grande semana!  

 

Eugenio Mussak

Adendo:

Minha irmã Dora, com seus 82 anos, segue no hospital, lutando contra um tumor. Perdeu muito peso e não respira bem, mas mantém duas coisas: a esperança e a vaidade.


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica