# 84 – Uma experiência caórdica

# 84 – Uma experiência caórdica
Uma experiência caórdica
(02/03/2025)

– E aí, o que vai fazer neste carnaval? 

Se fosse neste ano, eu teria dito para meu amigo Cesar que iria fazer uma pequena cirurgia há tempos adiada, e aproveitaria a folga para me recuperar. Que, aliás, é exatamente o que estou fazendo.

Mas isso aconteceu há uns 20 anos, e o convite para ir para o Rio de Janeiro e sair em uma escola de samba foi prontamente aceita. E lá fomos nós, turma de amigos, ter uma experiência caórdica que marcou nossas vidas.

Tudo o que você tem que fazer é comprar a fantasia, e estar lá na hora marcada, com disposição. O resto o carnaval faz por você. 

Chegamos na Marquês de Sapucaí uma hora antes da saída de nossa Escola, a Unidos da Tijuca. A multidão, imensa, densa e colorida, move-se como se soubesse o que faz. 

Mas você não sabe. Não há uma placa indicativa, um balcão de informações nem um guia prestativo. É o caos em sua mais perfeita manifestação. E agora?

Subitamente você vê um ponto de referência: alguém usando a mesma fantasia que você. Por instinto, você se aproxima. Nas leis mentais, os semelhantes se atraem. 

E então, como por mágica, as alas se formam, em uma espécie de geração espontânea tropical. É quando aparece um coordenador que organiza as filas de seis, e manda seguir. De repente você está na avenida, e o fluxo segue naturalmente, como se você tivesse nascido para aquilo, cantando o samba-enredo que acabou de aprender por osmose. 

Uma escola de samba é o exemplo mais vistoso (e mais divertido) daquilo que se convencionou chamar de organização caórdica, que equilibra caos e ordem de maneira produtiva, permitindo inovação, adaptabilidade e crescimento. 

O termo caórdico foi cunhado por um executivo do Bank of América, nos anos 1970, chamado Dee Hock. Sua missão era aumentar o setor de crédito do banco, e ele acabou criando uma marca que praticamente virou sinônimo de cartão: VISA. 

Segundo ele, o caos e a ordem são inseparáveis, pois um habita o outro. Sem ordem não haveria crescimento, sem caos não haveria impulso para crescer.

Muitas vezes penso em minha vida com uma jornada caórdica, às vezes divertida como o carnaval, às vezes trágica como um cartão com limite estourado. E resolvo seguir, usando o crédito de energia que ainda tenho na conta, e sem me queixar da ressaca. 

Que você tenha um domingo divertido e uma semana produtiva!


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica