# 103 – Vai carpir um lote

# 103 – Vai carpir um lote
Vai carpir um lote
(13/07/2025)

Eu sei, a expressão é um pouco rústica mesmo. A frase completa é: “Pega uma enxada e vai carpir um lote”. Quem a usava era meu avô, dirigindo-se a alguém que se queixava muito da vida, ou que sempre procurava culpados para suas próprias mazelas.

Rústica, mas carregada de algum afeto pelo destinatário. Era uma espécie de convite para o trabalho sério, para o suor que cura a alma e edifica o caráter. Carpir não é simples arrancar mato – é olhar a terra, entender seu relevo, conviver com as agruras do chão.

Este assunto me apareceu nesta semana, durante uma conversa com a responsável pedagógica de uma faculdade. Ela procurava meios para engajar os alunos, oferecendo a eles mais “facilidades”.

Mostrou um aplicativo que resume obras literárias. Dá para conhecer, por exemplo, o enredo de Moby Dick em 10 minutos, sem ter de encarar as 600 páginas de Melville. Legal, pensei, mas será que não estamos, ao escolher os atalhos, ensaiando o drible perfeito à responsabilidade de percorrer o caminho?

Em vez de desafiar o estudante a desbravar cada parágrafo, a devorar o ritmo das frases e entender a arte da escrita, queremos dar-lhe tudo mastigado. É como oferecer a rede de dormir antes que o peregrino toque o topo da montanha. Não há mérito nisso.

No lote da educação, a leitura é semeadura. A colheita vem depois, ao longo da vida. E o assunto se espraia…

Assumir responsabilidades é esse carpir diário. Usando a leitura como exemplo, ela exige paciência, sim. É preciso acolher o capítulo difícil, insistir no parágrafo complexo, entender a frase, aprender a palavra. Mas parece que estamos em um tempo de atalhos.

Transfere-se culpas ao sistema educacional, ao mercado de trabalho, “ao mundo” – como se a gravidade dos próprios atos pudesse ser anulada com um clique. Querem promessas: “facilite a
vida”, “torne tudo mais leve”, “controle a dor”…

Esquecem que a dor, muitas vezes, é o motor da transformação.

Convide-se os jovens a carpir seu próprio lote. Faça-se com que sintam o peso da enxada. É do esforço, que germina a autonomia. Concluir um clássico é mais que conhecer uma história: é se descobrir capaz de enfrentar complexidades dentro e fora do texto.

Talvez seja essa a lição que se perdeu: o prazer de caminhar sem atalhos, de escutar o ritmo do próprio passo. Ensinar o corpo a resistir ao vento, à chuva, ao frio. E, ao final, contemplar a paisagem que só se revela a quem não renunciou ao trajeto completo.

Por isso, quando me pedirem soluções fáceis, responderei com a simplicidade de meu avô: “Vá carpir um lote.” E deixarei que cada um descubra, no esforço, o gosto inconfundível da maturidade.


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica