Virando o jogo
(07/07/2024)
Eu já joguei tênis. Era um jogador mediano, mas conseguia me divertir bastante. Com minha envergadura grande alcançava bolas mais difíceis, e tinha um saque bem alto. Talvez volte algum dia…
Mas esta crônica não é sobre tênis, e sim sobre a incrível capacidade humana de virar o jogo quando ele já parece perdido. É que no tênis isso acontece com alguma frequência.
Lembro de uma final do Australian Open disputada por dois monstros: Novac Djokovic e Rafael Nadal. O jogo já durava cinco horas e 53 minutos e estava no tie-break, o quinto set, o que significava que eles tinham empatado os quatro primeiros.
O Djoko estava sacando, mas o game estava 40 a 30 para o Nadal. Bastava um erro do sérvio, ou uma bola indefensável do espanhol para que terminasse o jogo e o Slam da Austrália.
Os dois estavam no limite de suas forças e os reflexos de ambos já não eram os mesmos. Nessa altura do jogo, a linha de fundo já passa a ter 1 km e raquete de 350 gramas a pesar 10 kg.
Foi quando Djoko fez seu pequeno ritual, dando uma volta sobre si mesmo com os braços abertos e olhando para a plateia pedindo a força dos aplausos. Quando voltou tinha sangue nos olhos.
Seu saque foi forte, e não deu para o Nadal, pois as pernas já não respondiam. Deuce – empate, o que levaria o jogo para mais dois pontos, e o Novac não os desperdiçou. O set point foi um smash no lado esquerdo da quadra enquanto Nadal estava à direita. Em condições normais ele teria corrido feito um touro miúra e devolvido a pancada, que nem era tão forte assim. Mas depois de quase seis horas isso não era mais possível, e ele nem se mexeu. Fim de jogo. Vitória do Novac!
Sim, o sérvio virou o jogo na Austrália, como já tinha feito outras vezes pelo mundo, e não só nas quadras. Começou criança, enfrentando a dura realidade da guerra na antiga Iugoslávia. Em sua biografia ele descreve o quanto as dificuldades daquela época o ajudaram a ser o guerreiro que é no esporte.
Para sobreviver precisou aprender coisas como disciplina, trabalho duro, sofrimento, resistência e resiliência. E aprendeu que é possível virar o jogo, que, no linguajar do esporte é o ato de reverter um placar, ganhar um jogo que parecia perdido, o que dá à vitória um sabor especialíssimo.
Pense um pouco, estimado leitor, querida leitora. Você se lembrará de situações parecidas em sua história pessoal. Estar perdendo o jogo não é uma maldade do destino. É uma oportunidade para sermos mais do que temos sido, e do que seríamos se não tivéssemos que enfrentar os tie-breaks da vida.
Um ótimo domingo e uma grande semana!