Impossível ficar impassível
(05/10/2025)
Em 1817, o jovem francês Henri-Marie Beyle ainda não havia adotado o pseudônimo Stendhal e não tinha publicado O Vermelho e o Negro, que o colocaria entre os maiores escritores franceses.
Nesse ano, ele, que era amante das artes, foi para Florença, onde visitou, entre outras maravilhas, a Basílica de Santa Croce. Essa igreja, construída no século 13, tem o teto forrado por um afresco de Giotto, que conta a vida de São Francisco de Assis.
Uma obra assim não passa despercebida para alguém que aprecie arte, ou que tenha, minimamente, sensibilidade diante da beleza. O jovem francês foi além: teve algumas reações psicológicas e físicas que o fizeram se sentir mal. Um quadro clínico que depois foi estudado e passou a ser conhecido como Síndrome de Stendhal – uma sensibilidade tão grande que chega a ficar perturbadora.
Lembrei dessa história porque, enquanto escrevo esta crônica, olho para os lados e me vejo cercado por um afresco do pintor ítalo-brasileiro Fúlvio Pennacchi que toma as quatro paredes do bar de um hotel em Campos do Jordão, onde estou hoje.
Não sinto os efeitos de uma síndrome, mas percebo que este é um momento em que me é impossível ficar impassível.
Podemos descrever como “impassível” alguém que não sente – ou não demonstra sentir – emoção alguma diante do belo ou diante do terrível. E há, sim, quem passe pela vida como se transitasse em um corredor sem janelas – não vê, não ouve, não se deixa tocar.
Freud descreveu esse fenômeno como uma forma de defesa: o ego se protege da dor evitando o contato com o afeto. Mas há um efeito colateral nessa economia emocional – a indiferença. Quando a alma se blinda contra o sofrimento, ela também se torna impermeável à beleza, à alegria, ao espanto.
É próprio do humano ser o contrário disso. É poder ser afetado. É permitir que algo nos mova – uma música, uma paisagem, um olhar, um gesto. Bem como um sofrimento, a injustiça, a guerra. Platão dizia que o belo conduz o espírito ao bem. Talvez porque uma experiência estética nos devolve a sensibilidade perdida. Diante da beleza, não há cálculo nem defesa: há entrega. E reencontramos a inteireza que o mundo funcional nos rouba.
A arte, o amor e até a dor têm esse poder de nos arrancar da inércia. O contrário da vida não é a morte: é a anestesia. Pessoalmente, prefiro manter a angústia diante do terror e da ignomínia, se o preço para não a ter for a indiferença diante do belo e do emocionante.
Não ficar impassível nos coloca como protagonistas da construção de uma vida que vale a pena, à qual é impossível ficar impassível.