#129 – Tudo! Até o tango…

#129 – Tudo! Até o tango…

Na Argentina tudo pode mudar. Tudo, menos o tango”* – Essa foi a frase que abriu o espetáculo Astor Piazzolla Eterno, no teatro Colón, em Buenos Aires.

Eu estava lá e ouvi. A sequência foi um misto de orquestra, cantores, bailarinos e atores contando a história do bandeonista e compositor argentino que, simplesmente, resolveu provar que aquela frase estava errada. E ele fez isso sem levantar a voz. Apenas transformou aquele misto de milonga, polca e mazurca em uma espécie de jazz com acordes clássicos.

Inicialmente descrito como um tipo de pensamento triste que se pode dançar, o tango era a diversão e o lamento de homens rudes no bordeis e bares da zona portuária de Buenos Aires no final do século 19. Hoje é patrimônio imaterial da humanidade.

Toda cultura cria seus dogmas emocionais, e mexer neles pode ser perigoso como contrariar uma lei.  Piazzolla pagou o preço: foi chamado de herege, de traidor, de estrangeirado. Disseram que ele havia matado o tango, mas o tempo, sempre mais sábio que os guardiões da pureza, fez justiça – ele não matou o tango, ao contrário, o fez renascer, crescer, elevar-se.

O que era uma espécie de conjunto de acordes para estimular a dança, passou a ser uma música boa de se ouvir e capaz de provocar as emoções mais profundas. Realmente o tango mudou a partir dos anos 50 e 60, e se agigantou.

Paradoxalmente, continua sendo mais tango do que nunca.

Naquela noite eu era um dos espectadores ocupando uma das 2.487 cadeiras de veludo vermelho de um dos teatros mais espetaculares do mundo. Mas, para mim mesmo, eu era mais que isso. Eu estava reencontrando um velho conhecido.

Houve um dia, muitos anos atrás, em que eu tive a rara oportunidade de conhecer Astor Piazzolla em pessoa. Em 1986 ele se apresentou no Teatro Guaíra em Curitiba, e, para surpresa dos organizadores, o astro internacional só tinha uma exigência: após o espetáculo queria jantar na casa de alguém, e não em um restaurante.

Foi quando os pontos se ligaram. Eu morava em uma casa grande e aconchegante, e era amigo de um dos organizadores do evento. Ele me pediu emprestado o espaço, contratou um cozinheiro, e a noite virou um momento memorável. Eu tomei vinho e joguei sinuca com Piazzolla. Troquei perguntas e confissões com um dos maiores músicos do século como se fosse meu vizinho de porta. Quarenta anos depois o jovem curitibano ouvia, emocionado, o legado de seu conviva.

Na ocasião, talvez tentando ser original, perguntei a ele sobre uma música um pouco diferente do repertório daquela noite, e que havia me causado alguma inquietação. A música se chamava Escualo, palavra que significa tubarão.

Era uma composição densa, que parecia anunciar um perigo. Percebi que ele gostou da pergunta, e descobri então que, além de reinventar o tango, Piazzolla tinha outro hábito insólito: gostava de enfrentar tubarões no mar. Caçava-os para, depois da luta, devolvê-los à água.

Quando lhe perguntei por que, ele respondeu com a simplicidade dos que pensaram muito: “Um homem tem que enfrentar seus tubarões.

Mas Piazzolla não falava de peixes. Falava de dilemas, de decisões adiadas, dos medos que circulam à nossa volta enquanto fingimos que não os vemos, até que o círculo se fecha. Naquela época, eu também tinha meus tubarões, e ainda os tenho. Demorei a entender que ignorar os tubarões do mar da vida não os torna menores, apenas mais próximos.

Talvez seja disso que se trate quando falamos em mudança. Até as melhores são desconfortáveis e perigosas. Mas não mudar também tem seus perigos, ainda que revestido de conforto.

Às vezes a estagnação está disfarçada de fidelidade, e, amor à tradição e apego ao conhecido são os nomes que usamos para o medo de crescer. Piazzolla nos ensinou, com a música e com a vida, que honrar a origem não significa congelá-la, mas permitir que ela evolua para continuar viva.

No fim descobrimos que tudo pode mudar. Até o tango na Argentina.

 

*(En Argentina todo puede cambiar. Todo, menos el tango!)

 

 

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".