# 130 – Carnaval na neve

# 130 – Carnaval na neve

Ligo a televisão sem grandes expectativas e com certa má vontade. Afinal, vamos concordar: nos últimos tempos, o noticiário tem sido uma espécie de prontuário clínico da humanidade. Difícil acompanhar a falência de um banco e todas suas nauseantes ramificações soturnas. Sempre há uma nova inflamação moral, uma nova fratura institucional, um novo sintoma social.

Mas, desta vez, foi diferente. Num canal, o Carnaval. No outro, as Olimpíadas de Inverno. De um lado, plumas, suor, tamborins. Corpos que parecem ter sido inventados para o movimento. De outro, neve, gelo, silêncio, precisão. Atletas belos deslizando como se tivessem feito um pacto íntimo com a gravidade.

E eu sorrio. É uma espécie de alívio, de bálsamo para uma alma cansada.

No carnaval, somos campeões. A música afro-brasileira, o povo miscigenado e o clima tropical criaram as condições para transformar os três dias da festa pagã da fertilidade no maior espetáculo da terra.

Já nas olimpíadas de inverno, por motivos óbvios somos quase só plateia e, mesmo assim, meio apática, afinal não entendemos a maioria das modalidades. Você sabe, por acaso, o que é curlins, skeleton ou esqui cross-country?

Neste ano a delegação americana tem 233 atletas, a do Canadá 210, e a Itália, o país-sede, inscreveu 198. O Brasil, que não tem um metro quadrado de neve, a não ser em um ou dois dias em São Joaquim, está lá, com 15 inscritos.

Todos, claro, residentes na Europa ou na América fria, filhos de brasileiros, ou emigrados quando crianças, como Lucas Pinheiro Braathen, cuja mãe é brasileira e o pai é norueguês. Pois não é que esse novo ídolo insuspeito, simplesmente faturou o ouro inédito no slalom gigante? Uma conquista igualmente gigante.

Viva Lucas!

No noticiário, parece haver uma hierarquia, segundo a qual o que dói mais merece mais manchete.  Mas ali estavam dois espetáculos absolutamente diferentes, e igualmente belos, aliviando nossas dores.

No Carnaval, a explosão da vida. A música organizando o caos, a dança dissolvendo fronteiras, uma comunidade inteira dizendo “estamos aqui, estamos vivos.”

Nos Jogos de Inverno, a contenção elegante. A disciplina, o cálculo, o risco milimetricamente administrados. Um ser humano lançando-se ao ar sobre lâminas ou esquis, e pousando com a serenidade de quem treinou muitos anos para aquele instante.

Fogo e gelo. Excesso e precisão. Improviso e técnica. E ambos produzindo a mesma coisa: elevação.

A música nos alegra, a dança nos estimula, o esporte nos motiva, e o belo nos lembra que não somos apenas criaturas que erram, brigam e tropeçam na lida cotidiana. Somos também capazes de criar beleza e harmonia, e desafiar as leis fundamentais da natureza.

E talvez a sabedora esteja em sustentar essa dupla visão: não fechar os olhos para o que precisa ser corrigido, mas também não permitir que o sombrio monopolize nossa percepção do mundo.

Gostamos de pistas – a da Sapucaí ou a de Cortina – não importa. O que interessa é ter onde desempenhar e desfiar os limites, do esforço, do cansaço ou da gravidade. É próprio do humano.

Há algo profundamente civilizado em uma escola de samba que trabalha o ano inteiro para desfilar por pouco mais de uma hora. Há algo igualmente nobre em um atleta que acorda antes do sol durante anos para executar um salto de poucos segundos.

Nenhum dos dois está fugindo da realidade. Estão, ao contrário, expandindo-a. Desligo a televisão com uma sensação rara. Uma espécie de esperança tranquila, pois, apesar de tudo, ainda sabemos celebrar, competir com dignidade e criar beleza.

Num tempo em que o ruído costuma ser mais alto que a música, talvez seja um gesto de lucidez reconhecer que a alegria também pode ser notícia. E, em certos dias, é exatamente essa a notícia de que precisamos.

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".