Tenho uma relação tranquila com cirurgias. Talvez por causa de meu conhecimento em medicina, o respeito pelos cirurgiões e a experiência de quem já fez várias – da retiradas de nevos suspeitos na pele até a embolização em uma artéria do cérebro, sem contar a quase dezena de procedimentos ortopédicos envolvendo placas e parafusos, resultado de esportes radicais.
Por isso nesta semana entrei no centro cirúrgico do Hospital da Visão em Curitiba como quem vai tomar um café com um amigo, que, aliás, era quem ia me fazer uma facectomia com implante de lente intraocular, ou seja, operar minha catarata.
“Catarata” é o nome que se dá à opacidade do cristalino, que é uma lente natural que todos temos dentro do olho, responsável por focalizar a luz na retina. O nome vem do fato de que a vista começa a ficar turva como se estivéssemos olhando o mundo através de uma queda de água.
A analogia é feliz, a palavra é sonora, e o nome pegou.
Em meu caso, há uns dois anos, era uma neblina, que foi ficando espessa e, antes que virasse uma Garganta do Diabo ou uma Niagara, resolvemos trocar a lente.
A catarata não é exatamente uma doença. É mais um capítulo previsível do envelhecimento, como as rugas e os cabelos brancos. Se vivermos o suficiente, quase todos teremos algum grau de catarata, e isso não significa fragilidade, significa apenas… tempo.
Sobre a cirurgia, ela é de uma simplicidade assombrosa. Microincisões ao redor da córnea permitem a retirada do cristalino e a colocação da nova lente, que entra dobrada, se abre e se acomoda lá dentro como se lá tivesse nascido.
Mas, claro, essa simplicidade não quer dizer facilidade. A complexidade científica foi sendo aplainada ao longo de décadas. Ou séculos…
A história das lentes e dos óculos é fascinante: no século 13, cristais convexos começaram a ser usados para auxiliar o trabalho dos monges copistas com vistas cansadas, provavelmente em Veneza ou Pisa. No 17 adaptaram-se as hastes, no 18 surgiram a lentes bifocais, inventadas por Benjamin Franklin. No 19 os monóculos e os pince-nez se tornaram moda, e no 20, com a chegada do plástico, barato e resistente, vieram os óculos como os conhecemos hoje.
Sem contar que Baruch Espinosa, o importante filósofo holandês do século 17 era um polidor profissional de lentes. Costumava dizer que limpar a visão ajudava a entender a realidade.
Leonardo da Vinci, em seu Codex do Olho, sugere alterar a vista colocando-se uma película de água oleosa diretamente sobre a córnea. O italiano não anteviu apenas o helicóptero e o paraquedas. Imaginou a lente de contato exatamente como as que Bausch & Lomb lançaria séculos depois, feitas de hidrogel.
Durante a segunda guerra mundial, alguns pilotos feridos apareciam com fragmentos de acrílico das cabines dos aviões nos olhos. O médico inglês Harold Ridley observou que o material não provocava reação inflamatória e imaginou colocar uma lente dentro do olho. Deu certo, e, de lá para cá, foi uma questão de aprimorar materiais e técnicas.
A ciência acumulada por séculos sempre mostra a que veio.
Hoje as lentes intraoculares são feitas de materiais biocompatíveis, podem ter graus e até ser multifocais. O procedimento é preciso, elegante, rápido e seguro. Dura menos de meia hora, a anestesia é local e o paciente vai para casa logo depois. A cirurgia é transmitida para uma tela na sala onde está o acompanhante do paciente. Um espetáculo televisivo para quem não tem o estomago fraco.
E, ainda, uma boa notícia: a facectomia com implante de lente intraocular é um procedimento que pode ser feito também através do Sistema Único de Saúde – SUS, criado em 1988 e que garante a todos os brasileiros o acesso universal e igualitário ao melhor da medicina, e é modelo para o mundo.
A indicação para a cirurgia é funcional – a catarata não precisa ‘amadurecer” como se pensava antes. Opera-se quando a qualidade de vida do paciente começa a ser afetada. Foi meu caso.
No dia seguinte da cirurgia, meu mundo estava mais nítido, os contornos estavam mais definidos, as formas mais claras e a cores mais vivas. Não é exagero retórico, acredite. A nitidez recuperada impressiona, e colabora com a alegria de viver. O médico acendeu a luz e, de quebra, ligou alguma música alegre.
Pois é, o tempo turvou a minha lente, mas a ciência veio com um sorriso tranquilo e uma mão precisa, e poliu o meu olhar.