#132 – O dia que não existe. Mas existe.

#132 – O dia que não existe. Mas existe.

Não sei se sou só eu que penso assim, mas, para mim, entre ontem e hoje parece que ficou faltando algo. Sinto que existe, nessa passagem de mês, uma espécie de fantasma matemático: o dia 29 de fevereiro.

Aquariano do dia de Iemanjá (02/02) sempre achei injusto ter um mês amputado. É que, com as numerosas reformas do calendário, ele acabou perdendo um dia para julho e outro para agosto, só para que os meses que homenageavam dois imperadores (Júlio Cesar e Augusto) ficassem com 31.

Além disso, fevereiro, que era o último mês do ano (dezembro era o décimo como seu nome indica), passou a ser o segundo, depois de janeiro (que era o 11º) nos ajustes feitos pelo Papa Gregório XIII no final do século 16, dando origem ao calendário gregoriano, que perdura até hoje.

Até aí ok – fevereiro era uma espécie de “mês técnico”, usado para os ajustes necessários. Mas havia mais: acumule-se as 6 horas de giro ao redor do sol que sobravam todo ano, a cada 4 crie-se mais um dia, e coloque-se em… fevereiro, o mês que não reclama nunca.

O termo “bissexto” vem do fato que os romanos repetiam o sexto dia antes das calendas de março a cada quatro anos para fechar a conta do calendário.

(Ah, calendas é como eles chamavam o começo de cada mês. E “deixar para as calendas gregas” é adiar indefinidamente algo, pois no calendário grego não se usava a expressão).

Essas são apenas algumas das confusões e esquisitices do calendário, dos egípcios para cá. Nada é exato no tempo humano, nem mesmo o próprio tempo.

E, na verdade, o que importa é o que fazemos com ele.

O último ano bissexto foi 2024. Eu estava começando uma nova vida, ou, pelo menos tentando, depois de um período de tempestades com chuvas, trovoadas e granizos emocionais e existenciais.

E aquele fevereiro raro, com cinco quintas-feiras, que havia começado tão bem (tinha ido passar meu aniversário com toda a família no Algarve, o que rendeu a linda crônica “Amor incondicional”), não podia terminar diferente.

No meio da tarde do dia 29 entrei em um charmoso café e encontrei uma charmosa mulher. Rosa Maria era seu nome. Ela se refazia, com o auxílio de uma xicara do fumegante líquido negro, entre duas sessões em sua clínica psicanalítica. Papo vai, papo vem, achei-a impressionante.

Rapidamente demonstrou uma inteligência viva, dessas que iluminam uma conversa inteira, e uma alegria que não fazia barulho, mas fazia total sentido e era muito bem-vinda. Conhecê-la num dia que só existe a cada quatro anos, depois me pareceu uma compensação poética da realidade.

E hoje penso que há encontros que poderiam acontecer em qualquer quinta-feira. E há encontros que parece que precisam de uma data rara, improvável, quase clandestina no calendário. Como se o universo tivesse reservado um espaço fora da rotina para que algo extraordinário pudesse ocorrer.

E talvez seja essa a função secreta do 29 de fevereiro: lembrar-nos de que o tempo pode ser corrigido pela matemática, mas a vida é corrigida pelos encontros. E alguns deles tão raros quanto um dia que quase não existe.

Amanhã será 2 de março, a segunda feira que parece abrir os trabalhos, e o mundo seguirá sua marcha indiferente. Mas eu sei que, em algum ponto do passado recente, houve um dia que não estava garantido, e que, no entanto, aconteceu. O calendário é uma invenção humana. O amor, não…

 

 

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".