#133 – Passando a ferro

#133 – Passando a ferro

O dia começa cinza em Gramado, onde escrevo esta crônica. Olho para o céu e vejo nuvens dobrando-se umas sobre as outras. Sinto vontade passá-las a ferro.

E em seguida digo para mim mesmo: “Você está praticando uma associação livre bem bobinha, meu caro”. E percebo que surge, do nada (ou não), o tema desta crônica.

É que ontem vivi uma pequena surpresa aqui na serra gaúcha, quando fui conhecer o Sky Glass em Canela, aquela impressionante plataforma de vidro suspensa sobre o Vale da Ferradura. É uma dessas engenharias modernas que impressionam pela obra si mesma.

Você caminha sobre uma placa transparente 360 metros acima do rio Caí, cujo nome, no mínimo, parece uma ironia bem-humorada. A vista é de tirar o fôlego, e a caminhada te obriga a vencer o medo natural da altura. A paisagem e a plataforma valem o passeio.

Mas não é esta a surpresa a que me refiro.

Acontece que dentro do mesmo parque há um museu dedicado a um tema absolutamente inesperado: o Museu do Ferro de Passar.

Entrei movido por aquela curiosidade meio divertida que temos diante das coisas improváveis, mas poucos minutos depois eu estava fascinado com a experiência. Ali estavam mais de duzentos exemplares de ferros de passar roupas, vindos de diferentes épocas e lugares do mundo.

Descobri que os egípcios e outros povos antigos já utilizavam instrumentos para deixar as vestes mais lisas. Séculos depois vieram os ferros aquecidos no fogo, os pesados ferros a carvão – alguns com pequenas chaminés – até chegarmos aos modelos elétricos e, finalmente, aos modernos ferros a vapor que alisam as roupas no cabide, e que não são mais de ferro, mas de algum material sintético.

Saí do museu com uma pergunta na cabeça: de onde vem essa antiga obsessão humana por roupas sem rugas? Afinal, a roupa nasce lisa mas logo se amassa. Basta sentar-se, caminhar, viver um pouco, e lá estão as dobras, os vincos, as imperfeições do tecido.

Talvez, no fundo, o ferro de passar seja uma tentativa civilizatória de restaurar a aparência da ordem. O amassado tem algo de caótico, desordenado, e o liso, ao contrário, transmite disciplina, cuidado, elegância.

A analogia foi inevitável: quantas vezes eu me vi tentando desamassar a mim mesmo, tirar as dobraduras de minha vida, fazer vincos perfeitos na minha imperfeita existência? Quantas vezes saí de casa com a alma lisa pela manhã, e voltei à noite todo amarfanhado e torto, buscando algo para me alisar? Quem sabe a paz, quem sabe um propósito, talvez o amor…

O museu de Canela me fez perceber que nós nascemos lisinhos, mas a vida se encarrega de nos amassar repetidas vezes. A cada um de nós cabe a tarefa doméstica e repetida de passar a ferro – frio ou quente – nossa própria existência.

E então lembrei que hoje é o Dia Internacional da Mulher.

Passar roupa foi sempre considerado tarefa feminina. Não porque houvesse qualquer razão biológica para isso, mas porque as sociedades humanas têm o costume de transformar convenções arbitrárias em regras aparentemente naturais.

Assim, incontáveis camisas masculinas foram cuidadosamente passadas por mãos femininas. As chamadas Amélias (aquelas mulheres que, segundo a velha canção do Mário Lago, “não tinham a menor vaidade”) dedicaram horas silenciosas a domar as rugas das roupas da família.

E enquanto as roupas dos homens eram alisadas, a vida das mulheres permanecia cheia de vincos: limitações sociais, restrições profissionais, expectativas rígidas sobre o que podiam ou não podiam fazer.

Talvez por isso o progresso social tenha sido, de certa forma, uma grande sessão de passar roupa histórica. Aos poucos, claro, foram sendo alisadas algumas das dobras mais injustas da cultura, ainda que não todas.

Hoje, quando olhamos para trás, percebemos que as mulheres não apenas passaram roupas. Passaram também fronteiras, preconceitos, barreiras que pareciam permanentes.

E enquanto eu pensava nisso, lembrava do museu improvável à beira do abismo. Quem diria que um simples ferro de passar poderia contar tanta história?

Talvez porque, no fundo, os objetos domésticos também sejam arquivos da civilização. E eles guardam, em suas superfícies lisas, as rugas que a humanidade levou séculos para aprender a desamassar.

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".