É incrível como podemos retirar aprendizados e reflexões a partir de conversas triviais. Nesta semana, por exemplo, dona Suely, uma pessoa que conheci recentemente, e que aprendi a admirar, pela família que construiu, e pelas histórias que viveu, contou uma passagem curiosa.
Certa vez, ainda na década de 1980, ela recebeu em casa a visita de uma parente italiana, a tia Lucia (prenuncia-se Lutchía). Descendente da parte da família que não embarcou na grande travessia atlântica que trouxe tantos italianos para o sul do Brasil, chegou aqui cheia de curiosidade, e alguma apreensão com o que encontraria nos trópicos.
Como toda boa anfitriã, dona Suely caprichou, e tratou de fazê-la “sentir-se em casa”. Cozinharam juntas, trocaram receitas, cantaram canções italianas e brasileiras, cada uma tentando reproduzir, com carinho e alguma dificuldade, o sotaque da outra. A convivência parecia uma pequena ponte entre dois continentes e entre gerações.
Num dos dias, foram ao supermercado comprar os ingredientes para o almoço de domingo. Percorreram os corredores com atenção culinária até que, de repente, tia Lucia parou, franziu a testa e disse:
-“Não estou encontrando mascarpone”.
A resposta veio natural:
-“Não existe mascarpone no Brasil”.
Tia Lucia reagiu com uma mistura de incredulidade, alguma pena da prima expatriada, e um certo escândalo gastronômico:
-“Não? Mas como vocês vivem sem mascarpone?”.
A pergunta tem certa lógica se pensarmos que o mascarpone – esse queijo cremoso provavelmente surgido na Lombardia do século XVII – tornou-se um personagem central de muitas receitas italianas. Para quem cresceu com ele na mesa, sua ausência pode parecer quase uma mutilação culinária.
Mas a verdade é que milhões de brasileiros viveram muito bem durante décadas sem jamais provar mascarpone, e até sem ouvir falar nele. E foi aí que a história ganhou um sabor mais filosófico – acontece que todos nós temos nossos próprios, e particulares, mascarpones.
Não falo de queijos, evidentemente. Refiro-me àquelas coisas que, em algum momento da vida, elegemos como indispensáveis. Pequenos ou grandes ingredientes da existência que passam a fazer parte de nossa identidade. Aquilo sem o qual imaginamos que a vida perderia o gosto.
Para alguns, o mascarpone é literal: a comida da infância, o tempero da casa da avó. Para outros, pode ser um lugar, um amor, uma rotina, um reconhecimento profissional. Um hábito aparentemente banal, como o café de manhã, o jornal impresso, a caminhada no mesmo quarteirão. Ou os passeios de moto.
A psicanálise observa esse fenômeno com interesse, pois nós nos estruturamos psiquicamente a partir da relação com os objetos, e não apenas os materiais, mas os objetos afetivos e simbólicos. Com o tempo, esses elementos deixam de ser simples preferências, tornam-se parte de nossa estrutura, e sentimos que não conseguimos mais viver sem.
É por isso que, quando perdemos um desses nossos mascarpones, sentimos algo próximo de um desarranjo interior. É como se o cardápio da existência tivesse sido subitamente alterado.
Por exemplo, a perda de nossa relação mais próxima como nossa mãe, que deve ocorrer em algum momento da vida. A rigor, ela é nosso grande mascarpone simbólico. Afinal, foi ela que nos transformou no tiramissu que somos hoje.
Mas, se observarmos bem a própria “grande história”, veremos que o ser humano é extraordinariamente capaz de se adaptar e viver sem quase tudo aquilo que um dia julgou indispensável. Civilizações inteiras se reorganizam ao longo do tempo, e às vezes quase instantaneamente, como sabemos.
As pessoas reconstroem a vida depois de mudanças e até de perdas profundas. Amores acabam, carreiras mudam, cidades ficam para trás, e ainda assim a vida encontra novos ingredientes. A ausência de um mascarpone pode ser sofrida, mas não é o fim da cozinha onde preparamos e temperamos nossas vidas.
E talvez seja pedagógico lembrar que nossos mascarpones são importantes, deliciosos e afetivos, mas não são a própria vida. A vida é maior que qualquer receita, e todos temos um talento excessivamente humano para reinventar nosso cardápio.