#135 – Eu, meu heroi

#135 – Eu, meu heroi

Estava em Curitiba, passei, por acaso, em frente ao prédio de um antigo cinema, e me lembrei que foi lá que eu assisti, em 1981, Indiana Jones e os caçadores da arca perdida.

Lembro que fui ver o filme mais por causa de George Lucas e Steven Spielberg do que pelo personagem, que ainda era desconhecido. Mas adorei o Indiana, que, aliás, rapidamente se tornou um ícone, ao lado de figuras como James Bond e Rocky Balboa.

E acho que gostei do Indi porque me identifiquei com o fato de que ele acordava de manhã com uma única certeza: seu dia seria uma aventura.

Eu ainda me sinto um pouco assim, e tenho motivos para isso, pois escolhi um estilo de vida com pouca rotina. Mas, conversando com amigos cujo cotidiano é, em tese, previsível, eles também relatam surpresas, contingências, novidades. O dia se repete, mas em uma órbita diferente a cada vez. Todos somos Indianas Jones, sem saber.

No fundo, esses personagens são apenas capítulos de uma longa tradição humana: a da vida heroica. Desde Homero e seu Ulisses, seguimos criando personagens que saem para o mundo, enfrentam o desconhecido, e voltam transformados. Eles nos representam, ou representam nosso ideal.

Quem chegou mais perto de explicar esse traço humano foi um sujeito que também escolheu uma atividade pouco convencional: Joseph Campbell, o mitólogo. Disse ele, em seu fabuloso livro O herói das mil faces:

Precisamos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos para viver a vida que nos espera”.

Sim, as histórias de heróis nos fascinam porque espelham a nossa própria vida. A chamada “jornada do herói” – partida, iniciação e retorno – não é exclusividade da ficção. É, em escala menor, o roteiro do nosso cotidiano.

Saímos de casa, enfrentamos desafios, lidamos com imprevistos, e voltamos. E, como todo herói, não voltamos exatamente os mesmos, e o lugar aonde chegamos já não é mais o mesmo também.

Indiana Jones deixa sua vida pacata de professor universitário, cruza o mundo, enfrenta inimigos, armadilhas e incertezas, em busca de algo que talvez nem exista. No fim, retorna sem a arca, mas com algo mais importante: a sensação de ter cumprido sua missão.

Na vida real, também planejamos o dia, organizamos a agenda, definimos metas, mas esquecemos dos imprevistos, dos golpes inesperados, das dificuldades que surgem sem aviso, dos “espelhos que giram” no meio do caminho (uma cena engraçada e marcante do filme).

Felizmente, nossos planos originais tampouco preveem as ajudas inesperadas, os encontros decisivos, os pequenos acasos que nos salvam no final.

A mitologia fala em monstros, labirintos e provas. Os livros de gestão falam em estratégia, contingência, crise. No fundo, descrevem a mesma coisa com linguagens diferentes.

Em 1977 Freddie Mercury escreveu We are the Champions e cantou que somos campeões não porque vencemos sempre, mas porque continuamos apesar das derrotas, das dívidas, dos tropeços. Talvez seja isso que nos torna heróis: a insistência.

Escrevo nesta manhã de domingo, lembrando da semana que passou e lançando olhares para a agenda da próxima.  Nada muito épico à primeira vista, mas, mesmo assim tenho uma certeza: há uma jornada à minha espera.

Ainda sobre Campbell, duas mensagens finais dele passam despercebidas para os mais encantados com as aventuras.

Primeira: o que procuramos no mundo, muitas vezes está dentro de nós. Segunda: lembre que você não está sozinho nessa aventura que é viver.

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".