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No palco, Angus Young já tinha começado a solar Highway to Hell, Brian Johnson ainda estava aquecendo os arames farpados que possui a título de cordas vocais
E eu continuava preso em um imenso congestionamento paulistano, agravado pelo show da turnê Power Up do ACDC no Morumbis, o estádio do São Paulo Futebol Clube.
Não faz mal – pensei eu – tudo pelo rock de verdade, e nada melhor que os australianos intensos e geniais, com seus elegantes riffs de guitarra. Aumentei o som no carro e tratei de aproveitar o momento.
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Naquele exato momento, um potente computador na Central de Monitoramento da Gerência de Engenharia de Tráfego 3, localizada na Zona Leste da cidade, foi informado, por um radar instalado em um poste da avenida Chucri Zaidan, que um pequeno Audi A1 com placa final 3 ainda estava circulando após as 17:00 naquela terça-feira, desrespeitando o rodízio semanal.
Totalmente involuntário, este foi mais um entre tantos “pequenos pecados cotidianos” que, somados, formam uma espécie de biografia involuntária do descuido. Os 4 pontos agregados a meu prontuário naquele momento completaram os 40 necessários para ter a CNH suspensa.
Agora eu estava à margem da lei, ao lado de outros como eu, e também de campeões de pontos acumulados, abusadores costumazes de velocidade, furadores habituais de semáforos e motoristas alcoolizados, entre outros “colegas infratores”.
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Dando um salto no tempo, hoje eu escrevo esta crônica um pouco antes de sair para a terceira e última parte do curso de reciclagem exigido pelo Detran para me devolver o direito de dirigir como um cidadão responsável.
E o que eu posso dizer é que o sentimento desta experiência é um misto de curiosidade, enfado, diversão e… agonia.
São 30 horas de aula presencial, passeando entre o óbvio e o improvável. Conteúdos banais são repetidos com a solenidade de uma descoberta inédita. E as informações novas dificilmente cruzarão novamente o nosso caminho. Entre uma coisa e outra, o tempo se alonga, não passa – arrasta-se.
O professor – é preciso reconhecer – se esforça, tentando dar vida a um conteúdo previsível e monótono. E a cada 100 minutos, somos lembrados de que não estamos ali apenas para aprender, mas para sermos vigiados: é feita uma verificação biométrica de presença, conectada com o Detran, como um sino moderno marcando não o recreio, mas a disciplina. Há experiências que não nos ensinam pelo conteúdo, mas pelo desconforto.
Talvez essa seja a melhor maneira de nomear o que estou vivendo.
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Depois de 6 décadas de direção, sem acidentes, sem infrações graves, vejo-me ali, não como um cidadão experiente, mas como um aluno sob suspeita. Sinto então um leve desconforto identitário, pois, a maturidade, ao que parece, não nos absolve da pedagogia da desconfiança. Tenho que provar que estou na aula, não que estou aprendendo.
Mas o “castigo” funciona, pois não pretendo voltar aqui. Minha atenção aos sinais de regulamentação, advertência ou indicação será redobrada. As placas verticais, as pinturas horizontais no asfalto, os dispositivos luminosos eventuais, os silvos dos apitos e as informações gestuais dos agentes de trânsito formarão a sinfonia de minha experiência como motorista, como nunca antes.
Lembre, caro leitor, querida leitora: nunca pare onde houver um E cortado, sempre dê preferência ao outro quando vir um triângulo vermelho com a base invertida, e, quando estiver escrito PARE, simplesmente pare, não apenas diminua a velocidade.
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Somos cerca de 20 pessoas no curso. E ali há de tudo: professores, psicólogas, médicos, empresários, operários, um vigia noturno, uma dona de casa, alguns aposentados. Um pequeno retrato do Brasil, comprimido em cadeiras alinhadas e olhares resignados.
Talvez porque todos compartilhemos a mesma condição: não estamos ali por desejo, mas por consequência, e isso nos iguala, e, de certa forma, nos humaniza. Há uma solidariedade silenciosa que se instala, através de comentários sussurrados, pequenos risos cúmplices, histórias trocadas nos intervalos. Rimos de nós mesmos, e o professor, simpático, é cúmplice dos alunos dessa “quinta série” recriada.
Do ponto de vista antropológico, a experiência é rica: um grupo heterogêneo submetido a uma mesma regra, reagindo com uma mistura de resignação e humor. Do ponto de vista psicológico, mais ainda: ninguém ali se vê como infrator. Todos têm suas justificativas, narrativas e exceções pessoais. O erro, quando coletivo, ganha contornos curiosamente humanos.
Se a função pedagógica do curso era provocar uma mudança de comportamento, ouso dizer que a missão foi cumprida. Não pelo conteúdo ministrado, mas pela experiência vivida. Há métodos mais elegantes, sem dúvida. Mas poucos tão… memoráveis.
Saio do curso de reciclagem, se não mais instruído, pelo menos mais atento. E, curiosamente, um pouco mais tolerante com o sistema, com as pessoas, e, sobretudo, comigo mesmo, esse motorista veterano que, como qualquer outro, também erra.
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E, ao final, fica a lição de que até os mais experientes condutores, vez ou outra, esquecem que a estrada não perdoa distrações. E a vida, menos ainda.
Afinal, como diz o ACDC na Highway to Hell, “Nobody’s gonna slow me down” – ninguém vai me desacelerar. Só as regras de trânsito…