#137 – Uma Páscoa para todos

#137 – Uma Páscoa para todos

Na minha infância, a Páscoa era maior que o Natal. Descendente de ucranianos e filho de uma mãe católica fervorosa, no Sábado de Aleluia íamos à igreja para a cerimônia de “benzer a Paska” – uma cesta com um pão decorado, manteiga, ovos pintados (as Pessankas), linguiça e raiz forte ralada com beterraba, entre outros alimentos que seriam consumidos no domingo pela manhã.

O momento era emocionante e um pouco tenso. Com as cestas no chão, as pessoas retiravam o pano bordado com ponto-em-cruz, expunham o conteúdo para que padre aspergisse água benta, e então havia uma comparação silenciosa, uma espécie de concurso litúrgico.

Pequeno, eu não entendia o significado de tudo aquilo, mas sentia que havia algo importante. A fé, para mim, era apenas uma crença que se deveria ter, e não ser questionada, muito menos contrariada.

Aquela liturgia está em minha memória afetiva, bem como o café da manhã do domingo, que não era hora de procurar os ovos de chocolate deixados pelo coelho, mas da verdadeira “comunhão” – palavra que vem do latim comunio, e significa compartilhar, estar em união e sintonia com outros. No caso, a família, liderada por dona Olga.

Mas, o tempo passou, e, como costuma acontecer, levou consigo algumas certezas. Hoje, quando me perguntam se sou cristão, respondo que sim, mas não frequento igrejas, não sigo mais os rituais, e não tenho a fé no sentido clássico da palavra.

Mas também não consigo me declarar alheio à tradição que ajudou a moldar aquilo que sou. Para mim, a ideia de que cada vida humana tem valor, a noção de compaixão como virtude, o impulso de cuidar do mais fraco, e a possibilidade do perdão, são fundamentais como valores, assim como o são para o cristianismo como doutrina. Negar essa herança seria como negar a própria língua que falamos.

Por isso, encontrei uma forma – talvez imperfeita, mas honesta – de me situar. Sou, à minha maneira, um cristão laico. Ou, se preferirmos um termo mais preciso, um agnóstico cristão. Não professo a fé, mas reconheço sua influência. Não me ajoelho diante do altar como fazia no colégio franciscano em que estudei (e era reprendido por não fazer direito), mas sei que muitos dos meus valores foram esculpidos com sua influência.

E então chega a Páscoa. Para os religiosos, é a celebração da ressurreição.
Para outros, um feriado prolongado com ovos de chocolate. Para mim, um lembrete – não teológico, mas humano – de que a vida insiste, e persiste. De que sempre há algo tentando renascer, mesmo depois das nossas pequenas mortes cotidianas.

Muitas versões de nós mesmos vão ficando pelo caminho, e, mesmo assim, continuamos. A Páscoa, vista desse lugar mais laico, continua fazendo total sentido. Não como milagre transcendental, mas como metáfora existencial.

Ressuscitar, no fundo, é isso: recomeçar infinitas vezes e insistir na vida, apesar de tudo. Talvez eu não acredite na ressurreição como fato histórico, mas acredito intensamente na sua verdade simbólica.

E, curiosamente, isso me basta. A Páscoa da minha infância, com seu pão trançado e sua solenidade tão afetiva, ainda vive em mim. Não como crença, mas como sentido. E talvez isso já seja uma forma bastante digna ter fé na vida.

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".