Nesta semana estou especialmente interessado no assunto “proteínas”, porque meu exame de sangue mostrou que minha creatinina (o resíduo dos músculos que informa sobre o funcionamento dos rins) está ligeiramente elevada.
Isso não transforma em um doente renal, mas é um aviso de que meus rins já não funcionam com o vigor de antes. A providência imediata foi uma visita a um nefrologista (que me acalmou, mas pediu mais alguns exames), e a uma nutricionista da equipe.
Saí de lá com recomendações que, à primeira vista, parecem banais: beber mais água (bastante), reduzir o sal (ao mínimo), evitar alimentos processados (mesmo…). E, o mais importante, ajustar a ingestão de proteína.
Ajustar – esta foi a palavra. Nem de mais, nem de menos. Nas palavras da doutora, uma dieta normo-proteica. Nem hipo, nem hiper. Normo…
Principalmente se você frequenta academia, vai lembrar que vivemos uma época em que a proteína ganhou um certo status. Está nos rótulos, nas propagandas, nas conversas. E, de fato, ela é essencial, sobretudo para quem, como eu, faz musculação como forma de manter a saúde e o vigor.
E está certo, pois os músculos precisam do estímulo do exercício, mas também de matéria-prima dos alimentos, e a principal é a proteína.
Ocorre que o rim, esse órgão silencioso e disciplinado, prefere alguma sobriedade quando o assunto é proteína. Ele se ressente do excesso. E então surge um pequeno paradoxo fisiológico: aquilo que fortalece de um lado pode sobrecarregar do outro.
Como fazer para ganhar músculos e não fazer sofrer os rins?
A resposta está no título desta crônica – “ingesta medida” – uma óbvia brincadeira com a expressão “justa medida” (o conceito da ética grega clássica, que prega a moderação e o equilíbrio como caminho para a virtude e a felicidade, presente no Ética a Nicomaco, de Aristóteles) adaptada ao ato de comer.
A orientação, no meu caso, foi simples: cerca de um grama de proteína por quilo de peso corporal ao longo do dia. Uma conta simples, dessas que dispensam calculadora. Mas, como colocar isso em prática?
Bem, é só pesquisar um pouco e você vai descobrir que um ovo tem cerca de 6 gramas de proteína. Um peito de frango, algo em torno de 25, um filé de peixe, pouco mais de 20, um iogurte, uns 8 ou 10. E uma medida da prática e conveniente proteína vegana, 20.
E assim, quase como quem faz as contas do mês, rapidamente comecei a distribuir essas pequenas parcelas ao longo do dia, sem excessos e sem carências.
Durante boa parte da vida, comemos por hábito, por prazer ou por impulso, mas raramente por entendimento. E então chega um momento em que o corpo nos convida a participar mais ativamente do processo de nutri-lo.
Na juventude, vivemos uma certa abundância biológica. O organismo tolera algumas faltas, compensa alguns deslizes e perdoa os excessos. É como se fosse uma generosidade de nossa fisiologia. Mas, à medida que o tempo passa, percebemos que o corpo, ao que parece, segue a mesma filosofia da virtude dos gregos: moderação. E algumas exigências devem ser respeitadas – corpo em movimento, nutrição adequada, água, sol e sono.
É quando saímos da lógica da abundância para a lógica da justa medida. Ou da “ingesta medida”. E assim vamos criando uma forma mais sofisticada de saúde, de bem-estar, e de entendimento. Envelhecer pode parecer indigesto, porém, a ingesta certa de sabedoria e disciplina nos leva a uma medida justa com a vida, em cada uma de suas fases.