#139 – O travesso menino do tempo

#139 – O travesso menino do tempo

Quase ninguém sabe da existência de um país chamado Quiritibáti (ou Kiritibati).

Com uma população de um pouco mais de 100 mil habitantes, a República de Quiritibáti é formada por 33 ilhas e fica na Micronésia, bem no meio do Oceano Pacífico, a 5.300 km da California e 6.300 km da Austrália. Um dos menos desenvolvidos do mundo, depende da pesca, do coco e da ajuda externa.

Não, eu nunca estive em Quiritibáti.

Mas na semana passada estive em Campo Mourão, um município brasileiro que é o polo de uma riquíssima região agrícola, organizado principalmente por uma eficiente cooperativa, onde fui dar uma palestra para as lideranças de seu setor de crédito.

Localizada no centro-oeste do estado do Paraná, Campo Mourão fica a 13.000 km daquele atol do Pacífico. E o que uma coisa tem a ver com a outra? Deixa ver se consigo explicar…

Você já ouviu no Efeito Borboleta? Trata-se de uma metáfora proposta pelo meteorologista e matemático (e filósofo) americano Edward Lorenz, que criou, assim, o conceito central da Teoria do Caos.

Ele explica que qualquer reação em cadeia sempre começa por um pequeno evento, que vai se ampliando e multiplicando até produzir um resultado imenso. Assim, o bater de asas de uma borboleta no Brasil poderia ser o início de um furacão do Texas, por exemplo.

Pois é… Quando a temperatura da água cristalina no Pacífico equatorial aumenta em meio grau, por causa dos ventos Elísios vindos do Leste, talvez até os pescadores quiritibatenses gostem. Mas o resultado vai ser uma preocupação a mais para os agricultores paranaenses, e de muitos outros lugares do Brasil e do mundo. É o chamado fenômeno El Niño.

Por ter sido verificado próximo ao Natal, recebeu esse nome em uma alusão enviesada ao menino Jesus. Em resumo, é o aquecimento em curto prazo da superfície do mar naquela área do mundo, enquanto o resfriamento é chamado de La Niña. Haja criatividade…

Nomes estranhos à parte, o fato é que é ali que começa o ciclo de maior mudança climática do mundo, com resultados imprevisíveis em todo o planeta. No Brasil podem acontecer estiagem no norte e no nordeste, variações no sudeste e temporais no sul do país. Secas e enchentes, calor atípico, frio súbito, falta de água de abastecimento, queda na produção de energia são algumas das possibilidades, além, claro, do impacto na agricultura.

Pare este ano espera-se um EL Niño um pouco mais forte, principalmente no segundo semestre. No evento de que participei (na verdade foram dois, sequenciais, em municípios diferentes da região) o assunto entrou, mas não como ciência do clima, e sim como elemento da estratégia.

Entre gráficos e projeções, percebi que o pensamento estratégico, tão celebrado no mundo corporativo, é, no fundo, uma tentativa sofisticada de conversar com o tempo. Não o clima, ou o tempo do relógio, mas o tempo das transformações. E isso requer antecipar cenários, trabalhar com probabilidades, e preparar-se, não para o certo, mas para o possível.

Planejar, no fundo, é um gesto de humildade, pois significa admitir que não controlamos todas as variáveis. O que podemos é nos posicionar melhor diante delas. Os agricultores paranaenses não falam sobre os sistemas complexos, como os matemáticos, mas convivem com eles diariamente.

Um esclarecimento: há uma diferença entre “planejamento estratégico” e “pensamento estratégico”.

O primeiro é uma ferramenta de gestão. O segundo uma condição humana. Enquanto o planejamento organiza nosso trabalho, o pensamento nos coloca em relação como mundo, com o tempo, com as variáveis e, principalmente, com o imponderável. E nos damos conta que jamais controlaremos tudo, como querem alguns executivos com o peito estufado.

Na viagem de volta eu vim refletindo sobre o assunto fora do contexto do clima, da agricultura e das empresas. Pensei que muitos de nós vivemos como se o mundo fosse estável. Fazemos planos como quem escreve sobre pedra, e confiamos demais na permanência das condições. Quando algo muda, chamamos de imprevisto aquilo que deveria ser chamado de imprevisão.

Há, sim, pessoas que pensam estrategicamente quase por instinto, percebendo as relações de causa e efeito, e fazendo pequenos ajustes antes que grandes problemas se instalem. E há quem prefira viver no regime do acontecimento, reagindo à medida que a vida impõe suas variações. Nenhuma dessas posturas é moralmente superior, mas a primeira cobra menos juros ao longo do tempo.

No fundo, todos temos nossos próprios “El Niños”. Mudanças anunciadas, sinais discretos, presságios que preferimos ignorar. Sinais que vêm sutilmente, quase imperceptíveis, e podem aparecer no corpo, nas relações, ou na vida profissional. E a diferença entre as pessoas não está no que acontece, mas em como escolhemos responder.

Entre a ilusão do controle absoluto e a passividade resignada, existe um espaço mais inteligente: o da preparação consciente. Não para prever o futuro mas para não ser surpreendido por tudo.

Viajar pelo interior do Paraná nestes dias, me alertou sobre o fato. Vi pessoas olhando para o céu, literal e metaforicamente, e ajustando suas decisões a partir das pequenas possibilidades. Pessoas que percebem que o mundo não gira em torno de nós, mas que, ainda assim, nos convida a dançar com ele.

 

 

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".