Até o dia 11 de junho de 2010 eu praticamente não conhecia a Shakira. Sabia apenas que ela vinha da Colômbia caribenha, que já tinha lançado alguns álbuns, e que estava fazendo sucesso nos Estados Unidos.
Naquele dia começava a Copa do Mundo na África do Sul, e Shakira fez o show de abertura no Soccer City, o estádio para quase 100 mil pessoas que tinha sido recém reformado, e onde Mandela tinha feito o grande discurso após sua libertação, em 1990. Confesso que fiquei impressionado.
Ela cantou Waka Waka (This time for Africa) em um palco de dimensões modestas acompanhada por um grupo local de dança. Demonstrou um incrível controle da voz e do corpo em uma coreografia simples mas de grande efeito. Pés descalços, cintura fina emulando a dança do ventre de suas ancestrais libanesas, e, no rosto, um sorriso permanente. Dez anos depois ela dividiria o palco do Super Bowl com Jeniffer Lopez, tendo 100 milhões de espectadores.
Ontem Shakira chacoalhou Copacabana, reunindo o maior público da história das areias cariocas, e do mundo – cerca de 2 milhões de pessoas. Drones abriram a noite, desenhando uma loba nos céus seguida da imagem da cantora; e ela chamou Anita, Ivete, Caetano e Bethânia para dividir momentos no palco com ela. Arrasou…
Hoje, logo cedo, me deparo com um texto do Fabio Scabeni, o CEO da empresa brasileira de tecnologia Viasoft, com uma provocação irresistível: a de que a carreira de Shakira Isabel Mebarak Ripoll deveria ser estudada em todas as escolas de negócios do mundo.
E ele justifica sua opinião: o sucesso de Shakira não se deve apenas a seu talento natural (que todos temos, de alguma forma e em alguma medida). Na verdade, ele deriva principalmente da combinação de três forças: identidade, gestão e reinvenção.
Identidade para não se posicionar apenas como uma cópia latina de uma artista americana. Shakira é Shakira.
Gestão para transformar carreira em ecossistema, com marca forte, turnês bem planejadas e administradas, linha de perfumes, fundação Pies Descalzos, direitos autorais transformados em ativo financeiro.
Reinvenção para recomeçar depois de dois álbuns fracassados, e principalmente, transformar a maior crise pública de sua vida – a separação traumática de seu então companheiro, o jogador da seleção espanhola Piqué – em música, álbum e sucesso comercial.
Concordo com meu amigo CEO. Sua observação sobre o fato de que sucessos retumbantes – assim como fracassos acachapantes – devem ser objetos de estudo para quem deseja criar empresas sólidas ou carreiras exitosas, procede. E muito.
Mas parece que vivemos uma época que celebra o talento, mas negligencia o processo, que admira o palco, mas despreza os bastidores. Uma sociedade que consome o resultado, mas ignora o tempo necessário para construí-lo.
Shakira começou cedo, e seus primeiros álbuns não deram em nada. É curioso como o mundo costuma apagar esses capítulos iniciais, como se o sucesso fosse uma linha reta e não uma curva cheia de percalços. E aqui é necessário reconhecer uma virtude: a capacidade trabalhar e de permanecer.
Para criar algo especial para a Copa, Shakira buscou inspiração na cultura africana. E encontrou a expressão Waka Waka, que é uma espécie de grito de guerra camaronês, e significa algo como “vamos fazer”, ou “manda ver”.
Para compor a música, apresentada em pouco mais de três minutos, foi necessário pesquisar culturas, compor a canção, criar o ritmo adequado, negociar os direitos com uma banda camaronesa que já tinha abordado a expressão, e então ensaiar, ensaiar e ensaiar…
Ao final, quanto tempo mesmo levaram os três minutos?
Ontem, em Copacabana, milhares de pessoas cantavam as músicas com a Shakira. Algumas sabiam as letras, outras, apenas o refrão, e poucas conheciam a história inteira. Mas ela estava lá, invisível, sustentando cada nota.
No fim das contas, o que vemos como brilho quase sempre é o resultado de uma longa convivência com a opacidade. E isso, mais do que qualquer hit, é o que merecia ser ouvido.