Minha mãe mentia para mim. Dizia, por exemplo, com total convicção, que com certeza eu conseguiria, mas ela não tinha a menor garantia disso.
Dizia que eu tinha futuro, que eu poderia ser o que quisesse, e que não tivesse medo porque tudo iria dar certo no final. Dizia que eu era inteligente, mesmo quando tirava nota ruim, e que era lindo quando levava algum fora.
Hoje, lembrando de minha infância e da primeira juventude, quando eu era inseguro e me sentia fraco, minha mãe fingia que eu era o tal, e que ela tinha total confiança em mim. Me fazia acreditar que eu podia ocupar espaços que, naquele momento, estavam muito além das minhas possibilidades objetivas. Foi ela que me fez parecer natural enfrentar desafios enormes, estudar, tentar, insistir, recomeçar, falar em público.
Agora, que conheço um pouco mais sobre como funciona a vida, acho que minha mãe era uma perigosa falsificadora de limites. Mas as mães são assim mesmo – mentem com uma serenidade impressionante, e fazem isso simplesmente porque é necessário.
O filho volta arrasado da escola, esmagado por alguma derrota microscópica, que na infância parece o fim da civilização, e elas dizem “vai passar”. Nem sempre passa, mas passa o suficiente. Não é verdadeira essa mentira?
O filho acha que não consegue, e elas respondem “claro que consegue”, mesmo quando existem evidências sugerindo o contrário. O filho fracassa, tropeça, se perde, duvida de si mesmo, e elas persistem naquela espécie de delírio afetivo, dizendo “você vai encontrar seu caminho”.
Como é que elas sabem? A verdade é que não sabem, apenas apostam. E talvez aí esteja uma das formas mais puras do amor humano – acreditar antes das provas.
Minha mãe, dona Olga, fazia isso o tempo todo. Às vezes com palavras, às vezes apenas com o olhar. Havia naquele olhar uma espécie de confiança, como se ela enxergasse uma versão de mim que eu próprio desconhecia. Demorei muitos anos para entender isso.
Quando somos jovens, imaginamos que estamos conquistando o mundo sozinhos. Só mais tarde percebemos que caminhávamos apoiados numa estrutura afetiva feita de estímulos, encorajamentos e pequenas ilusões protetoras.
Toda criança deveria ter alguém que lhe dissesse “vai, tenta, você vai conseguir”, simplesmente porque muitas dessas mentiras maternas acabam se tornando verdades precisamente porque alguém acreditou nelas antes. Mas há pessoas que crescem sem nunca ouvir isso.
Um filho excessivamente protegido muitas vezes paralisa, e um filho desacreditado frequentemente encolhe. Mas um filho em quem alguém deposita confiança ganha uma espécie de autorização emocional para existir.
Em geral as mães enxerguam gigantes onde o resto do mundo vê apenas crianças desajeitadas, porque o fato é que elas não olham apenas para o que o filho é – olham para o que ele pode vir a ser. É sua função…
É claro que isso não elimina a dor, não impede os fracassos, nem protege completamente da brutalidade do mundo. A vida continua difícil, seletiva, imprevisível, mas existe uma diferença enorme entre enfrentar tudo isso sozinho ou carregando dentro de si a voz de alguém que um dia disse “eu acredito em você”.
Minha mãe já não está aqui, mas suas mentiras ficaram, e, pensando bem, talvez tenham sido as mentiras mais verdadeiras que alguém já me contou em toda a minha vida.