#142 – Darwin foi ingênuo

#142 – Darwin foi ingênuo

Antes que você estranhe o título desta crônica, preciso fazer uma confissão: sou darwinista raiz. Acho que a teoria do evolucionismo não explica tudo, mas explica bastante. Além dele, existe a crença, para quem crê.

E Charles Darwin é um dos meus heróis intelectuais. Durante mais de vinte anos dei aulas de biologia, e explicar a teoria da evolução era um de meus momentos curriculares favoritos. Tenho uma pequena biblioteca sobre ele e sua obra, e guardo com carinho uma escultura dele que comprei no British Museum.

E essa admiração deve-se ao fato de que Darwin mudou para sempre nossa maneira de entender a vida. Não só ele, claro. Coloco no mesmo patamar Newton, Freud e Einstein, mas nenhum originou uma teoria que tenha virado substantivo, como o darwinismo. E isso porque ela se aplica a muitos setores do conhecimento, e não apenas ao de sua origem, a biologia.

Atualmente, por exemplo, sentimos o peso do darwinismo na inclusão da tecnologia em nossa vida cotidiana.

Vamos a um raciocínio: para melhor entender Darwin é necessário considerar um elemento central em sua teoria: o tempo – o famoso deep time. O tempo profundo da geologia. O tempo quase incompreensível para nós, mas totalmente necessário para que pequenas mudanças, acumuladas lentamente, produzissem novas espécies, novas estruturas biológicas, novas possibilidades de vida. A evolução, para Darwin, era uma obra de paciência.

Mas Darwin jamais poderia imaginar o século XXI (daí a brincadeira de chamar este gênio de ingênuo).

Nesta semana participei, em São Paulo, do AI Festival, evento dedicado à inteligência artificial, e saí de lá com a sensação de que, para o humano, não vale mais o deep time. Agora estamos no domínio do shallow time. Ou, mais direto, do fast time.

Assisti a apresentações de novas ferramentas digitais que substituem, com inúmeras vantagens, as lançadas no ano passado. Um aplicativo transforma qualquer pessoa em um programador avançado. Outro apoia médicos no diagnóstico e condutas terapêuticas. Outro sintetiza vozes reais perfeitas (inclusive a minha, que já fala em nome de uma IA).

Um CEO conhecido abriu, em público, seu computador pessoal e mostrou como ele administra sua grande empresa com auxílio de fermentas de gestão e de comunicação, e de mais de um tipo de inteligência artificial. Sua produtividade se multiplicou, explica ele.

Pois, é, para o ser humano contemporâneo, a evolução passou a ser um exercício quase diário. Não vale mais o tempo profundo das eras geológicas, e sim o tempo raso e vertiginoso das atualizações instantâneas.

Antes, uma tecnologia era desenvolvida e utilizada ao longo de gerações. Agora algo novo pode estar obsoleto em algumas semanas. Haja adaptação…

Parece que a seleção natural deu lugar à seleção cognitiva. Sobrevive melhor quem aprende mais rápido, quem desaprende logo, quem suporta melhor a ambiguidade, quem consegue mudar sem colapsar emocionalmente.

Darwin observava tentilhões em Galápagos, adaptando seus bicos ao alimento disponível em cada uma das ilhas. Trocando o passarinho de ilha ele não sobrevivia, pois não conseguia competir com os mais aptos àquele ecossistema na obtenção do alimento.

Atualmente todos somos tentilhões habitando uma ilha que muda o tempo todo. A adaptação, que dispunha de milênios, agora nos oferece dias, e vemos seres humanos tentando entender se serão substituídos por máquinas capazes de escrever textos, produzir imagens, diagnosticar doenças, criar músicas, desenvolver estratégias e tomar decisões melhor que eles mesmos.

A antiga sobrevivência biológica era baseada na adaptação ao ambiente natural. Agora a sobrevivência humana parece baseada na adaptação ao ambiente tecnológico.

Darwin provavelmente ficaria fascinado, mas também assustado, porque a evolução natural tinha um freio chamado tempo, e a evolução tecnológica parece não ter tempo nenhum.

E talvez ele mesmo dissesse: “Como fui ingênuo” para seu amigo Thomas Huxley, cujo neto, Aldous Huxley, publicaria, em 1932, o livro O admirável mundo novo, que é uma espécie de roteiro imperfeito do mundo (nem sempre) admirável em que vivemos agora.

 

 

 

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".