#143 – Não se viaja duas vezes no mesmo trem – I

#143 – Não se viaja duas vezes no mesmo trem – I

Adoro trens. Para mim um trem é o melhor tipo de transporte que existe.

Trens são pontuais, espaçosos e você não precisa chegar com uma hora de antecedência para fazer check-in e despachar as malas. Basta saber de que plataforma sai a composição, verificar o número de seu vagão no bilhete, entrar, acomodar suas bagagens no compartimento próximo à porta, procurar seu lugar e daí pra frente é só curtir a viagem, sabendo com antecedência a hora da chegada e as paradas previstas. Pelo menos é assim na Europa.

Eu sei, eu sei… Eles têm trens desde o começo do século 19, foi lá que começou a revolução industrial, eles inventaram a máquina a vapor, o motor a diesel e deram um jeito de mover trens com ajuda da eletricidade. A Europa viaja sobre trilhos, e não é de hoje. Você pode ir de qualquer lugar para um lugar qualquer, cruzando fronteiras, campos, vilas, cidades, pontes, viadutos e túneis até por baixo do mar.

Torço muito que algum dia tenhamos algo minimamente parecido aqui no Brasil. Gosto da sensação de previsibilidade, conforto e segurança que os trens me passam. E, além disso, coleciono histórias das viagens de trens. Alguma coisa acontece comigo, pois sempre encontro alguém com quem acabo tendo uma boa conversa.

Certa vez viajei de Lyon a Paris, aliás o primeiro trecho de estrada de ferro na França, com cerca de 500 km, e que atualmente o TGV percorre em menos de três horas, com tempo para – dependendo da hora – almoçar e tomar um bom vinho local.

Eu tinha ido no dia anterior para encontrar amigos em um jantar na atual capital gastronômica da França e já estava voltando para continuar meu curso de francês em uma pequena escola particular no Marais. Meu lugar era em uma cabine que acomoda confortavelmente até seis pessoas, mas eu estava sozinho.

Quer dizer, estava, até que o trem começou seu movimento silencioso e suave, quando então a porta de correr abriu subitamente e entrou um cavalheiro com sinais de que quase perdera a hora.

Ele me cumprimentou com a cabeça, tratou de acomodar uma pequena mala e seu sobretudo no bagageiro acima das cabeças, pegou um livro e sentou-se à minha frente, junto à janela. Estávamos separados pela pequena mesa que os passageiros usam para ler os jornais, digitar no computador ou comer. Eu viajava de frente para o caminho, e ele de costas.

Na primeira hora da viagem ambos nos concentramos em nossas leituras ou na paisagem, até que nossa atenção foi solicitada pelo funcionário da Rail Europe, que nos ofereceu a refeição – um filé ao ponto com purê de batatas e legumes cozidos, acompanhados por molho de pimentas verdes e uma garrafa pequena de um Bordeaux espetacular.

Ambos comemos olhando pela janela, sem demonstrar interesse um pelo outro. Éramos apenas dois estranhos compartilhando um espaço, temporariamente.  Até que o vinho e um acontecimento fortuito quebraram o gelo, quando estávamos próximos a Bourg-en-Bresse.

A zona rural da França mescla fazendas mecanizadas com vilas simpáticas e pequenas propriedades que alimentam, às vezes, a mesma família há gerações.

De repente vi a mesma cena que havia visto na véspera: era verão, e um bando da garotos de uns 13 anos brincava em um pequeno regato, saltando em suas águas após se balançarem em uma corda pendurada no ramo de uma árvore que avançava quase até a outra margem.

Nesse momento comentei com meu companheiro de cabine, que também apreciava a cena:

– Passei por aqui ontem, e eles já estavam brincando. Os mesmos garotos no mesmo rio. Que maravilha…

Antes, porém, que eu completasse meu raciocínio, que teria reminiscências da infância e teorias sobre a importância de aproveitarmos cada fase da vida, ele me interrompeu:

Impossible!

– Como disse? – perguntei…

(a continuar)


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".