#144 – Não se viaja duas vezes no mesmo trem – II

#144 – Não se viaja duas vezes no mesmo trem – II

…ele me interrompeu:

Impossible!

– Como disse? – perguntei, achando que ele não tinha entendido meu francês, ou eu é que não havia entendido o dele, pois, apesar de dizer apenas uma única palavra, já deu a perceber que tinha sotaque estrangeiro.

– Você disse que os mesmos garotos estavam nadando no mesmo rio, était-ce?

– Sim, foi isso mesmo, eu os vi ontem, quando viajei a Lyon.

– Então eu reafirmo: impossível!

– Como assim?

– É que uma mesma pessoa não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. Esta é uma impossibilidade, tanto physique quanto métaphysique.

– Bem, eram os mesmos garotos, exatamente no mesmo lugar – argumentei, com certa irritação.

Oui, je m’excuse, monsieur. Você tem razão, eu fui grosseiro – disse o estranho, que continuou:

– Pois seriam os mesmos garotos e estão fazendo a mesma coisa no mesmo lugar – parece ser uma repetição, um moto-perpétuo de um acontecimento. Mas, se você olhar bem de perto, com atenção genuína, vai perceber algo fantastique.

Como ele se calou por alguns instantes depois de dizer isso, eu fui obrigado a dar-lhe corda para que se explicasse melhor.

– E que coisa fantástica seria essa, que eu poderia identificar em garotos brincando em um riozinho em pleno verão na campagne française?

Alors, você disse que havia visto a mesma cena ontem. Mas, imagino que pelo menos 24 horas se passaram entre um acontecimento e outro, ai-je raison?

Concordei com a cabeça que ele tinha razão, sim.

– Puis, nessas vinte e quatro horas, ainda que pareça despercebido para uma análise rápida, muita coisa aconteceu. Esses garotos não são exatamente os mesmos de ontem, acredite. Só parecem ser.

Imagine que um deles, que podemos chamar de Pierre, de ontem para hoje pegou um resfriado, e não está brincando com a mesma disposição. O Jean-Jacques levou uma bronca de seu pai que descobriu que ele reprovou de ano, e o René conheceu a Sophie, uma amiga de sua prima que veio de Paris passar as férias no campo, e ele caiu de amores por ela. Ah, l’amour à primière vue.    

Ele disse isso lançando um olhar para o céu através da janela e esboçando um meio sorriso. Eu estava acompanhando o raciocínio de meu imaginativo companheiro de viagem, e o que ele dizia começava a fazer sentido. Resolvi demonstrar atenção, e ele continuou.

– Você ainda acha que são exatamente os mesmos garçons, que estão lá naquele rio? Pequenos acontecimentos marcaram suas vidas, e eles não são mais, definitivamente as mesmas pessoas. E, além disso, a água que os banhou ontem já está muito longe daqui, agora faz parte de um rio maior, ou foi absorvida pelas margens, ou foi bebida por um animal e já virou urina, ou, ainda, pode ter evaporado, e agora é uma nuvem que vai chover na Bretanha só na semana que vem.

– Hoje, a água é totalmente outra, mon ami.

Meu companheiro de cabine estava se referindo ao…

(a continuar)


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".