Meu companheiro de cabine estava se referindo ao fato de que a vida é uma sucessão de acontecimentos que modificam as circunstâncias a todo momento. Só que, na imensa maioria das vezes, essas modificações são tão pequenas, verdadeiramente sutis, que se tornam imperceptíveis à observação despreparada. Mas nem por isso são menos importantes.
Costumamos nos referir às mudanças quando elas são grandes, sentidas, significativas, às vezes radicais. Entretanto, a história não é construída só por esses acontecimentos marcantes. Antes, ela depende das pequenas mudanças, que às vezes constroem progresso e às vezes providenciam retrocesso.
Um casamento, por exemplo, não é no quinto ano como era no primeiro. Pode ser melhor ou pior, mas nunca será igual. E o que o tornou diferente foi a sucessão dos pequenos acontecimentos que constituem a rotina da convivência. Duas pessoas vivendo juntas vão tomando a forma uma da outra, como o colchão se amolda ao corpo e o pé alarga o sapato. Lentamente.
O cidadão à minha frente se referia a isso quando usava os garotos e o rio como metáforas. Mas nossa conversa não tinha se encerrado. Comentei:
– Olhando por esse ângulo, você tem razão. Se considerarmos as pequenas variações, a cena será totalmente diferente, assim como eu estou voltado desta curta viagem a Lyon também diferente. Aliás, sou outra pessoa após o jantar de ontem.
– Na verdade, mon ami, você é a mesma pessoa, e aqueles garotos também são os mesmos, nadando no mesmo rio. É tudo igual, sim, só que diferente.
– Bem, agora você está me confundindo, sendo paradoxal. Ou é uma coisa ou é outra – disse, mais uma vez um pouco irritado.
– Aí e que está a beleza das coisas. Elas não precisam ser necessariamente uma coisa ou outra. Podem ser uma coisa e outra. Há pouco sentimos que o trem estava em uma subida, mas quando ele fizer a viagem de volta estará naquele mesmo lugar só que em descida. Seu copo de vinho está, observe, ao mesmo tempo, meio cheio e meio vazio, e isso não tem nada a ver com seu grau de otimismo ou pessimismo. É a realidade. Isso chama-se “unidade dos opostos”, que é exatamente o que cria desiquilíbrio e providencia movimento. Por isso tudo flui na vida, o rio, o trem, os acontecimentos.
– Então, em sua opinião, não há impasse em sermos, ao mesmo tempo, iguais e diferentes?
– Exatamente. Não há impasse. Há dualidade. O impasse surge da incapacidade de dois acontecimentos – ou duas ideias – poderem coexistir no mesmo tempo ou no mesmo espaço. Só que isso só acontece se deixarmos. A arrogância humana, por exemplo, é um provocador de impasses. O pensamento, quando opta pela humildade e pela inteligência, vai perceber que na vida existem só dualidades. Os opostos não são incompatíveis, e são, inclusive, interdependentes.
Foi uma bela viagem a Lyon. Encontrei amigos, conheci um restaurante espetacular, tomei bons vinhos, apreciei a bela paisagem e ainda por cima tive essa conversa instigante com um desconhecido na cabine do trem. Quando chegamos a Paris-Gare de Lyon, estávamos, ambos, ocupados com nossos pertences e nossos pensamentos. Com o trem parado e as pessoas se mexendo em direção a seus próprios destinos, estendi a mão ao cavalheiro à minha frente, e lhe disse;
– Foi um prazer conversar com o senhor. Falamos sobre tantas coisas e nem sequer nos apresentamos. Meu nome é Eugenio e eu sou do Brasil.
– Ah, Brésil, un pays magnifique. Muito prazer. Meu nome é Heráclito, de Éfaso. Dizem que sou grego, mas na verdade sou turco. Mas não há conflito nisso. Sou apenas humano. Au revoir.
E foi embora, deixando-me como me encontrou. Porém diferente.
Quando o olhei caminhando na plataforma à minha frente, notei que ele estava usando um terno folgado, carregava uma valise em uma mão, o sobretudo enrolado no outro braço e nos pés, sandálias de couro confortáveis.