Assisti ao jogo Brasil vs Marrocos em minha sala. Ou melhor, em minha biblioteca. A televisão ocupa um canto discreto do ambiente. As paredes são cobertas pelos livros que são meus grandes amigos.
Uma vez escrevi que o livro é o “cachorro encadernado”.
E nas estantes também repousam alguns bustos dos pensadores que me acompanham há décadas. Aristóteles, Freud, Darwin, Newton, Cervantes, Marx, Adam Smith, Pessoa, Neruda e outros habitantes permanentes da casa.
O jogo começou. As chuteiras cor-de-rosa da seleção chamaram minha atenção, mas não só a minha.
– Curioso – comentou Burle Marx – parece que o campo virou uma plantação de flores.
– Isso é uma jogada de marketing, corrigiu David Ogilvy, – os fabricantes de chuteiras capturaram até a atenção de um paisagista como você.
Marrocos não se interessou pela discussão estética.
Aos 20 minutos de jogo, Diaz passou para Saibari, que correu mais que o Gabriel Magalhães e encobriu o Alisson, abrindo o placar e parando o coração de cada brasileiro no estádio, nos bares, nas salas de estar.
Minha sala-biblioteca ficou pesadamente silenciosa. O Erik, ao meu lado, não disse nada. Meu amigo Sidnei, que nos visitava, franziu os olhos e também se calou. Mas havia os demais:
– Estou tendo um mau pressentimento – disse Han Solo.
– Confiem… Essa adversidade vai elevar o caráter do time – corrigiu Aristóteles.
Freud balançou a cabeça.
– Discordo. Ela apenas revela a parte do caráter do time que estava reprimida.
Jung resolveu entrar na conversa.
– Não esqueçam que existe um inconsciente coletivo do time em campo, pessoal. Já já vai começar a sincronicidade das jogadas.
Lacan não se conteve.
– O jogo é um nó borromeano. Tem que ter talento, time e garra. Senão não tem gozo no final.
Como sempre, ninguém entendeu muito bem.
Darwin observava calmamente.
– Não vejo motivo para preocupações. Os jogadores que estão em campo sobreviveram a um processo seletivo brutal.
Olhou para Ancelotti no banco, e completou:
– Ali está a própria seleção natural usando terno italiano.
Newton aprovou.
– Verdade. E a força dos treinos já vai produzir uma reação.
Taylor discordou.
– O que vejo é desperdício de movimentos. Alguém deveria cronometrar esses deslocamentos e aumentar a eficiência.
Foi ignorado por unanimidade.
O primeiro tempo terminou, e o Marrocos seguia vencendo. Hora de reorganizar o time e os pensamentos. Nós fomos comer sonhos de goiabada feitos pela Karine e tomar um café. Os pensadores recusaram…
Quando o segundo tempo começou, o Brasil parecia mais intenso.
Foi então que, num encontro feliz do tempo com o espaço, como diria Einstein, Vinicius Júnior recebeu a bola, driblou, avançou, criou oportunidade onde não havia e marcou aquele golaço.
Todos nos levantamos comemorando.
Carl Sagan disse que a bola parecia “um pequeno ponto azul” em deslocamento frenético em direção ao buraco negro do gol.
E Adam Smith explicou em tom professoral.
– Eis a força da liberdade individual. Um talento excepcional elevou toda a comunidade.
Marx quase caiu da estante.
– Ou talvez seja a prova de que onze trabalhadores produziram valor para que um único indivíduo recebesse os méritos.
Neruda, que era marxista e não gostava de futebol, pelo menos impediu que a Revolução Industrial começasse em minha sala.
– Há homens que chutam uma bola. E há homens que escrevem poemas com os pés.
Pessoa pareceu gostar.
– Que cada jogador seja todo em cada drible. Que seja tudo o que é em cada jogada que faz.
Enquanto isso, Picasso desenhava freneticamente em uma folha de papel. Depois nos mostrou um campo onde cada jogador aparecia simultaneamente em vários lugares.
Dalí olhou para o desenho, mexeu os bigodes fazendo um muxoxo e rapidamente desenhou uma bola derretendo.
Foi quando John Lennon deixou o violão de lado, e cantarolou calmamente.
– Imagine que não há times. Apenas jogadores sem fronteiras e sem religiões, sem motivos para matar ou morrer, apenas jogando um jogo em paz.
Ninguém questionou, pois não se discute com a poesia, nem com a utopia.
Só o Nelson Rodrigues cutucou.
– O futebol não tem importância, John. Mas, entre as coisas desimportantes, é a mais importante que existe.
Depois, com o jogo já nos dez minutos de acréscimo, ouvimos uma suave voz conhecida. Era o Roberto Carlos.
– Foram tantas as emoções…
Também ninguém discordou. Mas a frase mais inesperada veio de um canto da estante onde repousava o pequeno ser de orelhas pontudas.
– Tentar fazer o gol, não se deve. Fazer o gol ou não fazer. Tentativa não existe – disse o mestre Yoda.
Todos se olharam, cada um pensando em suas próprias tentativas na vida.
Rudyard Kipling acrescentou:
– Se és capaz de ganhar e perder e tratar do mesmo modo esses dois impostores, és um time, meu filho.
Foi então que ouvimos uma última voz.
Ela não vinha da filosofia, nem da economia, da psicologia, da física, da poesia, nem da política. Vinha do futebol mesmo.
Pelé levantou-se, olhou para todos nós, para os jogadores saindo do campo na tela de 61 polegadas, e falou com a serenidade de quem já tratou a glória e a derrota da mesma maneira:
– Vocês pensam demais. Futebol é para ser jogado.
E acrescentou.
– E a Copa está só começando, rapaziada.
Pela primeira vez naquela noite, ninguém teve resposta, e aquela foi a única unanimidade da partida.
E que venham os próximos sete jogos, rapaziada.