#147 – Si, se puede!

#147 – Si, se puede!

Enquanto o mundo continua produzindo notícias difíceis – guerras, terremotos, ondas de calor e crises políticas –, a Copa do Mundo nos oferece algo parecido com o inédito “intervalo para hidratação”.

Durante noventa minutos, o planeta inteiro parece acreditar que a coisa mais importante da Terra é uma bola. E, no meio desse planeta-bola, acontecem coisas interessantes.

Ontem assisti a Inglaterra enfrentando o Panamá (provavelmente você também). É claro que havia uma grande diferença entre as duas equipes. De um lado, uma potência do futebol, candidata ao título. Do outro, um país pequeno, sem tradição, daqueles que chegam ao torneio acreditando mais na esperança do que na estatística.

Mas aí, aconteceu que o jogo permaneceu equilibrado por mais tempo do que se imaginava, e a torcida panamenha começou a entoar uma espécie de grito de guerra:

“Sí, se puede! Sí, se puede!”.

Achei bonito, porque não era apenas um grito de torcida, era uma espécie de declaração de princípios. Como sabemos, os favoritos vivem da probabilidade, enquanto os pequenos acreditam na possibilidade. E é da possibilidade que a esperança se alimenta.

É possível. É possível resistir, surpreender, fazer história. É bom acreditar nisso.  No fim, prevaleceram a tradição e a estatística, e a Inglaterra venceu, claro. O coro então poderia ter sido substituído por um resignado “No se pudo!, mas a torcida apenas ficou quieta. Já tinha valido…

Mas, analisando por outro ângulo, o “sí, se puede” não era apenas o grito de uma torcida que, por definição, acredita em seu time. Era a disposição humana diante do improvável, em plena ação.

E o futebol tem dessas coisas. É um esporte em que o mais fraco pode ganhar.  Em outros, como o tênis, o vôlei ou o basquete, a superioridade técnica costuma aparecer ao longo da partida. No futebol, não necessariamente.

Uma bola desviada, um escorregão do zagueiro, um chute improvável, um goleiro inspirado, um instante de genialidade, e a história muda de direção.

Talvez seja por isso que tanta gente torce pelos pequenos, inclusive eu. Nos ajuda a acreditar nos “milagres” da vida.

Fiquei feliz com a passagem de Cabo Verde para a segunda fase, mas o destino, que lhe deu uma chance agora disse “chega”, e a colocou diante da Argentina.

Parece que essa tendência de torcer pelos pequenos acontece porque os pequenos nos lembram que o mundo ainda reserva espaço para o inesperado, e o inesperado é muito mais emocionante.

Quando um país pequeno enfrenta uma potência, o jogo deixa de ser apenas esportivo. Durante noventa minutos, confrontam-se também duas maneiras de enxergar a vida. De um lado, a força da tradição, e do outro, a coragem de desafiar as probabilidades.

É verdade que, na maioria das vezes, vence a tradição, mas basta uma única exceção para justificar todas as tentativas anteriores. É assim no futebol, e também é assim na vida. Afinal, a esperança nunca prometeu que seria fácil, prometeu apenas que valia a pena tentar.

Pra terminar, não sei como se fala “Si, se puede!” em japonês, mas acho que não vai dar pro Japão, não…

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".