Olá, Erik. Hoje você faz onze anos. Parabéns! Quando completou um ano, escrevi a primeira crônica para você.
Reli aquele texto agora, e encontrei ali um pai muito feliz e um pouco apreensivo. Eu dizia que você tinha vindo para me ensinar as coisas do coração, enquanto eu tentaria te ensinar as da razão. Dizia também que você teria um pai mais velho, com menos tempo pela frente, mas mais experiência para compartilhar.
Na época eu acreditava completamente nisso, e vivia entre a alegria e a culpa. Passei anos imaginando quanto tempo ainda teria para ser seu pai, e demorei a perceber que a pergunta importante não era essa. A pergunta era “quanto de pai cabe em um único dia?”.
Eu procuro a resposta a cada dia que passamos juntos, mas, na semana passada, ela veio com um pouco mais de força e clareza, quando você me acompanhou a Florianópolis. Oficialmente, eu tinha um congresso. Na prática, eu tinha um companheiro de viagem.
Você esperou minhas palestras terminarem, conversou com as pessoas, ouviu assuntos de adultos com curiosidade. Foi gentil com todo mundo, educado sem esforço, interessado em tudo. Os garçons do hotel elogiaram tuas escolhas e te tratavam como a um lordezinho, pois é o que você é, inclusive quando fala aquele inglês britânico sem erros. Ninguém saiu dali sem gostar de você, e eu saí orgulhoso.
Depois fomos às dunas da Joaquina. Você subia correndo, prancha de sandboard debaixo do braço, e descia gargalhando, levantando uma nuvem de areia. Eu filmava lá de baixo. Confesso que, por alguns segundos, pensei no pai que eu teria sido quarenta anos antes.
Provavelmente teria subido junto, tentando provar que ainda conseguia acompanhar você. Hoje não. Descobri que existe um tempo em que o melhor lugar do pai é esperar o filho chegar. E não porque lhe faltem pernas, mas porque lhe sobra admiração. Enquanto você descia as dunas, eu lembrava de outra aventura: a nossa leitura de Júlio Verne, afinal somos vernianos, não é mesmo?
Você gosta do Phileas Fogg, e eu também. Sempre gostei, talvez porque passei boa parte da vida parecendo um pouco com ele. Contando horários, embarcando em aviões, cumprindo agendas, viajando para dar aulas e fazer palestras, convencido de que o importante era chegar ao destino.
Só agora vejo que o verdadeiro herói daquela história é o Passepartout. É ele quem transforma a viagem em aventura. É ele quem presta atenção nas pessoas, nas paisagens, nos pequenos acontecimentos que Phileas Fogg quase deixa escapar.
Olha, sempre achei que, em nossas viagens, eu estava mostrando o mundo a você. E é verdade, mas hoje também acho que você me devolveu o mundo antes que a rotina o transformasse apenas em agenda. Parece que você está me ensinando a viajar e a viver. Assim como me ensina quando me vence no pingue-pongue e comemora mais a boa jogada do que a vitória. Quando pensa movimentos à frente no xadrez, mas interrompe a partida para conversar.
Quando me pergunta sobre buracos negros durante o jantar e espera uma resposta séria, porque ciência é parte de nosso encantamento. Quando olha para o céu e transforma estrelas em perguntas.
Na primeira carta, eu escrevi que você era feito de amor. Onze anos depois, continuo achando que essa foi a única previsão em que acertei completamente. O resto da vida tratou de me surpreender.
Você está crescendo entre irmãos adultos, sobrinhas, primos, livros, aeroportos, hotéis, plateias e mesas de restaurante. Talvez por isso converse com crianças e adultos com a mesma naturalidade. E talvez por isso tenha transformado também este seu pai.
Durante algum tempo achei que o calendário fosse o nosso maior desafio, mas hoje penso diferente. O amor não pode ser medido pelo calendário, e sim pela intensidade com que o praticamos a cada dia. E somos campeões nessa modalidade, meu filho.
Em cada um de nossos dias juntos, parece que cabe uma vida inteira. Cabe uma partida de pingue-pongue, um xeque-mate inesperado. Uma conversa sobre galáxias, uma página de Júlio Verne. Uma duna em Florianópolis, uma viagem de trabalho que vira férias. Cabe um abraço, um susto, uma gargalhada, cabe um pai inteiro e um filho completo. Obrigado, meu filho. Obrigado pelos seus onze anos.
E obrigado por uma descoberta que eu jamais teria feito sozinho. Passei muito tempo acreditando que eu era o Phileas Fogg que se bastava. Agora sei que toda grande viagem precisa de um Passepartout, e eu tenho a felicidade de viajar com o meu.