#149 – A NR-1 de cada um

#149 – A NR-1 de cada um

Nesta semana estive em Goiânia, a verde e planejada capital de Goiás, lá no meio do cerrado do Planalto Central. Fui falar para magistrados em um evento que não era sobre leis, e sim sobre saúde. Adorei a plateia atenta e os amigos que fiz. Aliás, é fácil fazer amigos em Goiás…

O assunto era o do momento: a saúde mental nos ambientes de trabalho.

Eu seu, eu sei… eu não sou psiquiatra. Então vale uma observação: o assunto era saúde mental, e não doença mental. E saúde não é uma questão apenas médica, é também uma questão administrativa e comportamental. E eu trabalho há vinte anos com o tema Comportamento Organizacional, que é um capítulo da Gestão de Pessoas.

Mas vamos abrir um parêntese e voltar um pouquinho no tempo: em 1978 o presidente da república era o general Ernesto Geisel, que nomeou, como ministro do trabalho, outro gaúcho, o engenheiro Arnaldo da Costa Prieto. Esse ministério tem que se ocupar com gerar empregos, qualificar mão de obra, mediar as relações sindicais, coisas assim.

Mas, naquele ano, o ministro assinou a primeira Norma Reguladora sobre as questões da segurança e da saúde do trabalhador – a NR-1. Era uma novidade necessária, para afastar, definitivamente, as heranças da revolução industrial e da escravidão.

O que ela dizia era que os ambientes de trabalho devem prevenir acidentes e não podem provocar doenças. Passou a ser obrigatório, por exemplo, o uso dos EPIs – equipamentos de proteção individual, como máscaras, luvas e calçados, quando necessário. Cinco eram os focos de atenção: riscos físicos, químicos, biológicos, acidentes e problemas ergonômicos, especialmente nas fábricas e nos escritórios.

Graças a essa legislação, e, principalmente, graças aos avanços da ciência da gestão, os ambientes de trabalho foram se tornando lugares seguros, do ponto de vista físico. Hoje dificilmente alguém vai perder um dedo trabalhando em uma empresa.

O problema, é que, atualmente, muitos estão perdendo o sono.

Praticamente não há mais vazamento de produtos tóxicos, por outro lado, proliferam os ambientes tóxicos. Muitas empresas impecáveis do ponto de vista da segurança física são inseguras do ponto de vista emocional.

Foi por isso que a legislação, a partir de 2025, passou a reconhecer também os riscos psicossociais. A NR-1 ganhou mais um paragrafo e voltou com toda força para os espaços de discussão sobre administração de empresas e gestão de pessoas.

Este é um assunto pra lá de subjetivo, pois o estado emocional de cada pessoa tem incontáveis influências. Você pode estar indo trabalhar de mal com a vida porque teve uma discussão em casa ou uma briga no trânsito.

A teoria diz que é justamente aí que a boa gestão funciona, pois o local de trabalho pode ser um lugar acolhedor o suficiente para te acalmar e te devolver o equilíbrio. Mas… será que é isso que acontece? Como é a ecologia emocional no local onde trabalhamos?

Este é o foco de atenção da gestão moderna. O primeiro passo, recomenda-se, é mapear os possíveis riscos, e depois tratar de mitigá-los. Coisas como metas inatingíveis, pressão por resultados, comunicação ineficiente, insegurança, lideranças mal preparadas, e o tão falado assédio moral, em que a pessoa se sente constrangida e humilhada pela maneira como é tratada, principalmente por seus superiores.

Estamos entrando em um assunto que ainda vai dar muito o que falar…

Por exemplo, segurança no trabalho tem a ver com a empresa cuidar dos possíveis riscos, mas também estimular os trabalhadores a cuidarem de si mesmos. A construtora dá o capacete ao operário, mas este tem que usá-lo, para ficar em um exemplo simples até demais.

Por isso eu saí daquela palestra pensando menos na norma e mais nas pessoas, e também em mim mesmo. Curiosamente, eu era o palestrante, mas também era a plateia. Aliás, tem que ser assim. Se o que eu disser não fizer sentido para mim, não valeu.

E me ocorreu uma pergunta que agora divido com você, caro leitor, querida leitora: e se existisse uma NR-1 para a vida de cada um de nós? Tendo minha própria NR-1, quais seriam os riscos que eu precisaria identificar em minha vida, para então agir sobre eles?

Talvez o excesso de pressa, a incapacidade de dizer não, ou a obsessão por agradar a todos. Talvez o celular que nunca silencia, a comparação permanente com a vida dos outros, o sono insuficiente, a agenda que não deixa espaço para o silêncio, a dificuldade de perdoar, o hábito de adiar aquilo que realmente importa.

É claro que ninguém escolhe viver em um ambiente tóxico, e existem organizações que adoecem pessoas, sim. Mas existe um outro extremo, que é o de acreditar que toda a responsabilidade pela nossa saúde mental pertence apenas ao mundo lá fora.

Nem tudo depende de nós, mas alguma coisa depende, sim. O homem é fruto do meio, mas o meio também é fruto do homem.

A empresa pode melhorar o ambiente. O chefe pode aprender a liderar. A legislação pode criar mecanismos de proteção. Tudo isso é necessário e bem-vindo. Ainda assim, ninguém poderá dormir por nós, caminhar por nós, escolher nossas amizades, definir quanto espaço concedemos ao ressentimento, à ansiedade e às preocupações. Nem decidir como preencher o vazio existencial.

Talvez o bem-estar emocional comece justamente nesse encontro: quando as organizações assumem sua responsabilidade sem infantilizar as pessoas, e quando cada pessoa assume a sua sem se culpar por tudo.

No fim da palestra, percebi que a melhor norma nunca será publicada no Diário Oficial. Ela é escrita todos os dias, nas escolhas que fazemos para proteger aquilo que existe de mais valioso em nós: a nossa capacidade de viver com lucidez. O que inclui decidir onde vamos trabalhar, e com quem, e o que fazer com o que a vida faz conosco.

Na saída, o abraço apertado de uma juíza justificou minha ida ao evento. Ela valorizou a palestra e recitou, ao meu ouvido, a famosa frase de Cora Coralina: “quando o mundo me atira pedras, eu as aproveito para construir a minha casa”.

Valeu, Goiânia!

 

 

 

 

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".