#150 – Dia dos pais – o lado B

#150 – Dia dos pais – o lado B

Hoje, assim que fui ver mensagens, posts e notícias me deparei com o esperado: celebrações, cumprimentos, fotos sorridentes, desejos de felicidades aos pais, afinal, é o dia deles (nosso).

Datas comemorativas têm esse efeito (ou defeito): transformam a vida em propaganda. A paternidade é até muito mais bonita do que parece nas propagandas, mas também é muito mais difícil.

Gosto de ser pai, e muito. Mas, se tivesse de fazer um anúncio honesto, colocaria uma pequena advertência no rodapé: ser pai tem efeitos colaterais.

Um deles é a preocupação. Você passa a carregar, dentro de si, uma espécie de alarme que nunca desliga completamente. Teu filho está crescendo, mas você sabe que o mundo não tem obrigação alguma de ser gentil com ele.

E então vem a culpa. Será que fiz o suficiente? Fui exigente demais? De menos? Estive presente? E do jeito certo? A paternidade vem acompanhada de perguntas para as quais não há respostas prontas.

E existe um paradoxo ainda mais incômodo: ser um bom pai significa, muitas vezes, fazer coisas das quais seu filho não vai gostar.

Dizer não, impor limites, interromper prazeres, e até expô-lo a alguma frustração para que descubra que a vida não funciona como um serviço de atendimento ao cliente. Um pai que quer ser amado o tempo todo pode acabar sendo apenas um fornecedor de facilidades, e a vida não é assim. Educar é uma forma peculiar de contrariar.

Eu adoro meus filhos – tenho 4. Com o menor, que é o que está mais presente em minha vida atualmente, vivo algo que me sugere ser a felicidade (leia a crônica 148 – Quanto de pai cabe em um dia, escrita por ocasião de seu aniversário, duas semanas atrás).

Mas, após uma longa “carreira de pai”, sei que a paternidade tem pouco a ver com a ideia de felicidade permanente, apesar desses momentos deliciosos. Porque ser pai também é saber que o tempo é um adversário. Meu filho mais velho teve um pai jovem. O menor terá um pai velho. Talvez por isso eu procure compensar o que o tempo inevitavelmente vai tirar, com aquilo que é só nosso: presença, intimidade, conversa, memória.

E então penso no que Freud disse: “Não me lembro de nenhuma necessidade da infância tão grande quanto a necessidade da proteção de um pai” – que frase!

Acho que ser pai é isso: oferecer proteção sem construir uma redoma; dar liberdade sem abandonar; ensinar sem transformar o filho em uma cópia de nós mesmos. E, sobretudo, estar suficientemente perto para que ele saiba que pode voltar, mas suficientemente longe para que consiga partir.

O maior presente que um pai pode dar a um filho, é provável que seja este: não uma vida sem sofrimento, mas a certeza de que, quando o sofrimento chegar – e ele chegará – haverá alguém que estará lá. Talvez em lembrança.

Por tudo isso, hoje, eu não quero romantizar a paternidade, quero apenas celebrá-la. Ser pai é bom. Muito bom. Mas é bom justamente porque não é fácil.

 

Bem, agora vou sair para buscar meu filho para aproveitarmos o dia juntos. Às vezes, olho para ele e tenho a impressão de que estou convivendo com uma pequena versão de mim mesmo. Ele tem meus trejeitos, meu humor, meu jeito de pensar, e até meu biotipo longilíneo. Isso me encanta, e me assusta um pouco. Quando ele nasceu, eu não imaginava que ele seria tão meu. E agora eu simplesmente adoro que seja.

 

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".