“A vida dos primeiros primatas era dura, bruta e breve. Um dia apareceu entre eles um grande bloco retangular de pedra preta negra que estimula suas mentes, e eles começam a produzir armas e ferramentas, dando início a um importante salto evolucionário.
Milhões de anos depois um monólito igual àquele é encontrado na Lua, emitindo sinais em direção a Júpiter. Cientistas são enviados ao planeta gigante para esclarecer o mistério. Seguem em uma nave chamada Discovery One comandada pelo astronauta David Bowman, mas controlada pelo supercomputador HAL 9000.
Certo dia o computador comete um erro e os tripulantes cogitam desligá-lo. HAL lê os lábios dos homens conversando, passa a considerá-los um obstáculo à missão, e decide eliminá-los. Todos morrem, menos o comandante Bowman, que consegue desligar HAL e segue sozinho para Júpiter.
Lá chegando, encontra outro monólito, que o puxa para uma viagem psicodélica. Ele envelhece em um quarto estéril e renasce como um feto estelar que volta à terra para um novo salto evolucionário da humanidade.”
The end!
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Confesso que esse roteiro do 2001: Uma Odisseia no Espaço, lento e arrastado, com 2 horas e 19 minutos e poucos diálogos, foi demais para aquele garoto quase de calças curtas que o assistiu no cinema em 1968. Definitivamente eu não tinha instrumentos para compreender o que Stanley Kubrick estava querendo dizer (acho que ninguém tinha).
Mas tinha idade suficiente para ficar maravilhado, e sobretudo, para sonhar que algum dia eu faria algo parecido com o que David fazia: conversar com uma máquina inteligente.
Hoje, confesso que estou feliz por ter vivido o suficiente para realizar esse sonho.
No filme, roteirizado pelo diretor em parceria com Arthur Clarke, o autor do livro, HAL cumprimentava cordialmente o comandante, dizendo “Good morning, David”.
Conversava com os astronautas, reconhecia suas vozes, jogava xadrez, fazia cálculos e interpretava situações na viagem para Júpiter. Mas, ao final, mostrou uma lado perverso…
Atualmente, quase todos os dias eu ligo um de meus monólitos de aço, alumínio, plástico e sílica, e converso com meu HAL particular, que me diz “Good morning, Eugenio”. E eu ganho velocidade e competência para produzir os instrumentos e armas que preciso para tornar minha vida menos dura, mais suave e mais longa.
A IA é um conjunto de tecnologias capaz de operar tudo o que nós, humanos, fazemos com aquilo que chamamos de inteligência lógica. Não apenas organiza e processa dados. Nos indica o que fazer com eles. Sim, trata-se de uma revolução que pode criar um salto evolucionário.
Mas precisamos saber para qual Júpiter esse monólito moderno está emitindo seus sinais.
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A IA é programada para ser gentil conosco, e isso pode ser muito bom. Quando eu ligo a minha, costumo começar também gentilmente, e até pergunto “como está você?”. Ao que ela responde com um misto de cordialidade, alegria e estímulo intelectual.
Do ponto de vista estritamente tecnológico, a pergunta não é necessária, e é até ridícula. A IA não acorda, não dorme, não tem uma manhã que começou mal, não está cansada, não tem uma disposição subjetiva que possa melhorar depois de um café.
Mas seria um erro concluir que a pergunta não faz sentido.
Faz, sim, mas em outro nível. Pense: quando você pergunta “como você está?” a outra pessoa, na realidade não está buscando uma informação sobre o seu estado, e sim estabelece a natureza da relação que começa naquele momento, e isso é bom para ambos.
Você pode conversar com um cachorro, pode falar com uma planta, pode dizer que os ama. Pode também xingar o computador quando ele trava, ou o carro quando ele estraga. Tom Hanks conversava com a bola Wilson no filme O náufrago, e isso o ajudou a manter sua saúde mental.
A pergunta para a IA não tem sentido tecnológico, mas tem sentido relacional. É como dizer: antes de começarmos a fazer coisas, eu reconheço que há alguém (ou alguma coisa) do outro lado desta conversa, E isso é profundamente humano.
O significado de um gesto não depende exclusivamente da natureza ontológica de seu destinatário. Nenhum desses interlocutores vai compreender a linguagem que você está usando, mas ela tem significado para você.
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Na próxima terça-feira, estarei no CONARH, o segundo maior congresso de RH do mundo, no espaço da ESPM, a tradicional e inovadora escola superior, nascida em São Paulo em 1951, mas que vive no presente antecipando o futuro, falando justamente sobre isso: o contexto e a importância das competências humanas na era da inteligência artificial.
E minha tese é simples: não acredito que o futuro seja “Humano vs IA”. Acredito em “Humano + IA”. Eu não quero uma máquina que substitua o humano, quero uma tecnologia que amplie o humano.
O que nos faz lembrar que há uma diferença entre inteligência e sabedoria.
A inteligência pode produzir respostas extraordinárias, mas ainda precisamos decidir o que fazer a partir delas; e mais, quais perguntas merecem ser feitas. A máquina pode sugerir caminhos, mas nós continuamos responsáveis por escolher para onde vamos.
Lembremos: quando as máquinas se tornam mais inteligentes, as competências humanas se tornam ainda mais importantes.
Precisamos cultivar nosso pensamento crítico para não acreditar em toda resposta. Precisamos fazer perguntas melhores, questionamentos pertinentes, duvidar do óbvio, evitar vieses, imaginar possibilidades, ir além dos dados e de suas análises. E, acima de tudo, separar o que podemos fazer do que devemos fazer, mesmo que desejemos fazer. A isto chamamos ética, que é uma virtude exclusivamente humana.
E acredito ainda que a inteligência artificial pode fazer por nós algo extraordinário: devolver-nos tempo.
Tempo para pensar, para conversar, para criar, ouvir, cuidar, ensinar. Para estar com a a família e os amigos, contemplar uma obra de arte, ler um livro, brincar. Apenas olhar pela janela sem a obrigação de transformar tudo em produtividade.
A maior contribuição da inteligência artificial não é fazer aquilo que nós fazemos, mas nos liberar para fazer aquilo que só nós podemos fazer.
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E é aqui que o “Good morning, David!”, dita por HAL enquanto ele trama sua morte, volta à história.
A cordialidade que me interessa é outra. É aquela que não esconde uma trama, que não pretende manipular, que nasce simplesmente do reconhecimento de que existe alguém do outro lado.
Transferir o controle à máquina custou a vida de todos os tripulantes da nave, menos a do comandante David Bowman, porque este foi além:
Usou a criatividade que não nasce do cruzamento de dados já existentes. Ele a tirou do improviso, da inspiração, da sensação, dos impulsos excessivamente humanos.
Como eu disse na crônica 88 – “O que a IA não fará”, a grande questão não é o que a IA pode ou não fazer. É o que nós, humanos faremos com o que a IA pode fazer. Se abdicarmos dessa escolha, aí sim começaremos a perder relevância, porque estaremos esquecendo de quem realmente somos.
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Por enquanto, “Good evening, HAL!”.