#152 – “A vida é de Deus. O tempo é do diabo”.

#152 – “A vida é de Deus. O tempo é do diabo”.

Ontem ganhei, da Rosa Maria, o último livro do escritor português Valter Hugo Mãe, recém-lançado na FLIP, editado pela Biblioteca Azul, e que já está dando o que falar, a começar pelo título: O século dos imbecis.

Comecei a leitura e acho que ele vai ser material para uma crônica inteira, pois o tema é atualíssimo, como veremos. Mas não hoje…

Não posso escrever sobre um livro que mal comecei a ler. Mas posso, isso sim, escrever sobre a primeira frase do livro, porque ela é do tipo que faz o leitor se mexer na cadeira, por curiosidade ou por desconforto:

“A vida é de Deus, mas o tempo é do diabo”.

Um livro é muito maior que a primeira frase, claro, mas esta já entrou para a lista das grandes aberturas. Hugo Mãe participou de painéis e deu inúmeras entrevistas recentes sobre o livro, e a abertura foi bastante questionada em vários desses momentos. O que ele queria dizer com isso, afinal?

A explicação do próprio autor português é simples e bonita: a vida é uma dádiva que nos oferece a possibilidade extraordinária de ganhar consciência, inclusive consciência de nós mesmos. O problema é que essa dádiva vem acompanhada de um limite: o tempo.  A frase oscila, então, entre a poesia e a tragédia, pois assim que Deus nos oferece a vida, o diabo começa, imediatamente, a consumi-la.

Deus nos dá a vida, essa extraordinária oportunidade de estar aqui, experimentar o mundo, conhecer pessoas, amar, aprender, criar, lembrar. E o diabo, esse ser pouco generoso, fica com o relógio.

Mas a verdadeira maldade do diabo não está em ele nos roubar o tempo, e sim em nos convencer a desperdiçá-lo.

A frase é sobre a oposição entre possibilidade e limite, e não sobre a oposição entre bem e mal, como parece sugerir. É que a vida abre e o tempo fecha. A vida nos dá a possibilidade de ser, e o tempo nos lembra que não poderemos ser tudo.

Essa é uma consciência que adquirimos com o tempo, mas a ironia é que quanto mais consciência adquirimos, mais percebemos a escassez do tempo. Ou seja, a consciência, que seria justamente aquilo que poderia nos libertar, também nos aprisiona em nossa finitude.

Isso explica por que a frase é tão boa para abrir O Século dos Imbecis. O livro parece começar falando de inteligência, mas, antes, está falando de consciência.

Os gregos perceberam isso e inventaram, entre outras coisas, dois modos de olhar para o tempo. Chronos, o tempo que passa, que pode ser contado, dividido e medido. E Kairós, o tempo oportuno, aquele instante especial em que alguma coisa acontece e ganha significado. Chronos é o tempo do relógio. Kairós é o tempo da vida.

Vivemos ocupados, mas nem sempre presentes, fazemos muitas coisas, mas nem sempre experimentamos o que fazemos. Acumulamos compromissos, informações, objetos, resultados e até pessoas, enquanto o tempo vai silenciosamente diminuindo.

Kairós aparece quando estamos inteiros no que fazemos. Numa conversa em que realmente escutamos, num abraço que não tem pressa, numa página que nos transforma, numa caminhada em que percebemos o céu, num trabalho que faz sentido, num instante em que nos damos conta de que estamos vivos.

Chronos continuará passando, indiferente às nossas urgências. Não há como detê-lo, acumulá-lo ou guardá-lo para depois, mas podemos escolher o que acontece enquanto ele passa. A diferença entre simplesmente envelhecer e amadurecer, talvez esteja em aprender que não podemos acrescentar horas à vida, mas podemos acrescentar vida às horas.

Para terminar, uma reflexão sobre esse território existencial: enquanto o diabo estiver olhando o relógio, o que nós temos que fazer, é prestar atenção a essa dádiva, chamada vida.

 


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".