Mais uma vez dou um título em inglês para uma crônica. Mas tem um motivo: no original, essa frase tem mais impacto. Ela significa “Estou cercado de idiotas”, e seu autor é o vilão Scar, no filme O Rei Leão.
Scar é um leão ambicioso e sem escrúpulos que planeja a morte de seu irmão Mufasa, o verdadeiro rei, e coloca a culpa em Simba, filho de Mufasa, e futuro rei. O enredo é conhecido, e o final feliz também, pois o bem tem que prevalecer sobre o mal em uma boa história da Disney (apesar de sua evidente inspiração em Hamlet, de Shakespeare).
A frase do leão canalha é um misto de constatação e lamento, e é dirigida às hienas que o acompanham. A cena provoca riso, mas ela tem um lado desconfortável, pois sugere que aqueles que se dispõem a seguir alguém deixam de ser críticos dos defeitos desse alguém, e não percebem o desprezo com que são tratados.
A necessidade, ou privilégio, de pertencer a um grupo faz com que desapareça a percepção de sua condição de ser um instrumento do poder. Ultimamente tenho me lembrado disso a cada vez que vejo os noticiários do Brasil e do mundo.
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Foi então que me lembrei do historiador italiano Carlo Cipolla.
Falecido em 2000, ele se dedicou a estudar a história da economia, da sociedade medieval e da Europa moderna. Ensinou em universidades italianas e em Berkeley, na Califórnia. Em 1995 recebeu o Prêmio Balzan de História Econômica, especialmente por sua curiosidade sobre a relação entre as condições materiais e a vida humana. Por trás dos números, ele enxergava pessoas.
Era um pesquisador rigoroso, mas também cultivava o humor e a crítica social. Foi o que o levou a escrever um pequeno ensaio que virou um grande livro: As Leis Fundamentais Da Estupidez Humana.
Para entender, é necessário conhecer as tais leis, que são cinco:
Primeira lei: A quantidade de estúpidos existentes no mundo é subestimada por todos nós. Há mais do que imaginamos.
Segunda lei: A probabilidade de alguém ser um estúpido independe de suas demais características, inclusive de sua inteligência e escolaridade. Há estúpidos entre os ignorantes e entre os diplomados também.
Terceira lei (a lei de ouro): Uma pessoa estúpida é aquela que causa perdas a outra pessoa ou a um grupo de pessoas, sem obter nenhum ganho, e ainda provocando prejuízos a si própria no processo.
Quarta lei: As pessoas não estúpidas sempre subestimam o poder prejudicial das pessoas estúpidas. Os racionais não percebem que lidar com, ou se aliar a, pessoas estúpidas, costuma ser um erro caro e catastrófico.
Quinta lei: O estúpido é mais perigoso que o bandido, pois as ações de um ladrão têm um objetivo claro (ganhar algo), mas o estúpido destrói sem razão previsível, o que torna mais difícil se defender dele.
A terceira lei é a que define um estúpido, e a partir dela, Cipolla organiza seu raciocínio, e cria quatro categorias de pessoas:
Inteligentes: São os que produzem benefícios para si e para os demais.
Ingênuos: Beneficiam os outros, mesmo causando prejuízo para si mesmos.
Bandidos: Buscam o benefício próprio, mesmo prejudicando alguém.
Estúpidos: Causam prejuízos aos outros sem ganhar nada, ou se prejudicando no processo.
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Este é o tipo de assunto que nos leva, automaticamente, a fazer nossa própria classificação. Cruzamos com os quatro tipos todos os dias, no trânsito, no trabalho, na família, nas amizades, na política.
E as confusões são frequentes. Um bandido pode ser considerado um inteligente apenas porque ganhou algo. Ou vice-versa. E o estúpido pode passar por ingênuo, porque não ganhou nada. E vice-versa também.
Segundo Cipolla, a estupidez está presente de forma aparentemente inofensiva na sociedade humana, mas tem um efeito mais nocivo sobre essa própria sociedade, do que grupos criados especialmente para provocar danos, como o crime organizado.
E, quando o assunto envolve as questões do poder, de qualquer tipo (político, econômico, fama, influência digital), a contabilidade dos danos pode ser ainda maior. E não importa de que lado está o estúpido.
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Para terminar imaginando um antídoto à estupidez, quero citar outro autor europeu, agora francês: o sociólogo Pierre Bourdieu. É dele o conceito do “capital cultural”.
Bourdieu mostrou que nossa posição na sociedade não envolve apenas bens materiais e títulos. Também envolve um capital constituído por conhecimentos, maneiras e competências adquiridos ao longo da vida. Esse patrimônio influencia nosso discernimento e nossa maneira de participar do mundo.
A partir daí, eu arrisco uma reflexão: o conhecimento e a cultura podem nos ajudar a enfrentar a estupidez pois ampliam nossa capacidade de examinar as consequências do que fazemos, inclusive quando estamos seguindo alguém.
Acumular títulos e diplomas oferece pouca proteção se os usamos apenas para justificar nossas certezas. Talvez o antídoto comece quando aceitamos aplicar a nós mesmos o senso crítico que dedicamos tão generosamente aos outros.
E a qualidade da sociedade como um todo também será definida pela densidade de pessoas com capital cultural, independente de seu capital econômico. Ter cultura e referências certas pode nos livrar da estupidez. Ter apenas dinheiro, não.
Afinal, como disse Mufasa, o verdadeiro rei leão, falando para Simba: “Quando se sentir sozinho olhe para as estrelas. Os grandes reis do passado estão nos observando do céu, e sempre estarão lá para te guiar. E eu também”.