– Professor Eugenio? Me acompanhe, por favor. Seu translado será feito de helicóptero.
A moça que me recebeu no aeroporto de Porto Alegre disse aquilo com a naturalidade de quem informa onde está o estacionamento.
Eu havia chegado para dar uma palestra em um evento da UNIMED, que aconteceria na FIERGS, a Federação das Indústrias do estado gaúcho. Já havia estado nesse lugar várias vezes, e sabia que não era longe.
Na minha cabeça, entre o aeroporto e o auditório haveria um carro, algumas ruas, talvez algum trânsito. Mas, desta vez, havia um helicóptero me esperando.
Helicópteros, para mim, não são novidade, pois já viajei em vários. Quando trabalhei para a Petrobrás dando treinamentos, eu ia para as plataformas de petróleo na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro, a mais de cem quilômetros da costa, em helicópteros grandes e potentes, do tipo Super Puma, Sikorski e Airbus.
Desta vez seria um pequeno helicóptero Esquilo. Nome curioso para uma máquina que quer pertencer à família dos pássaros. Fabricado em Itajubá, Minas Gerais, pela Helibrás, empresa brasileira do grupo Airbus, o Esquilo é um dos mais comuns no transporte de pessoas atualmente.
Em minutos eu estava no ar, em companhia de um simpático comandante. Me encantou a delicadeza da partida. Aquela estrutura de metal deixou o chão suavemente, como se alguém a suspendesse por um fio invisível, sem pressa, sem solavanco, sem susto. O solo simplesmente começou a se afastar e eu, mais uma vez, invejei as gaivotas.
Da varanda de minha casa, em São Paulo, vejo helicópteros todos os dias. Alguns são da polícia, outros transportam empresários, equipes de resgate. Acho que também o governador do estado, que trabalha aqui perto.
Cada um segue com sua missão, atravessando o céu e o ruído da cidade, ignorando, com um certo desdém, os congestionamentos comuns nas ruas da metrópole.
Eu costumo acompanhar seu percurso com os olhos, encantado com aqueles colibris de metal, capazes de pairar sobre um ponto e depois seguir adiante, como se escolhessem a cada instante onde querem estar.
Parecem contrariar Newton, mas, na verdade, fazem o contrário: voam porque obedecem às leis da física, o que só faz aumentar minha admiração pela engenharia aeroespacial. Conseguimos compreender a força que nos prende ao chão e, usando outras forças, aprendemos a subir. Parece simples assim…
Newton aprovaria, e o menino que ainda mora em mim também aprova, embora esteja menos interessado nas equações e mais na aventura de voar. Ele olha para aquelas hélices e pensa apenas: como pode?
Lembro de Leonardo da Vinci e de seu parafuso aéreo, uma espiral que ele imaginou capaz de se elevar ao girar. Penso que ele se inspirou no parafuso de Arquimedes, usado para elevar água. Leonardo queria elevar gente. Olhava para o ar e procurava uma maneira de se apoiar nele.
Aliás, o museu em Siracusa chama-se Museo Archimede e Leonardo, pois mostra as coincidências – ou não – entre os pensamentos e as obras desses dois gênios, separados por 18 séculos.
A máquina de Leonardo não chegou a tirá-lo do chão, claro, mas o desenho ficou, e o sonho nunca abandonou os humanos. Ficou aquela ideia lançada sobre o papel, à espera de um mundo capaz de ir além.
Isso é algo que me encanta e também me comove: imaginar o que ainda não se consegue construir, mas que algum dia será possível. Paulo Freire chamaria isso de “inédito viável”.
Os séculos se sucedem, e costumamos celebrar o instante da inspiração, mas é justo celebrar também as horas de concentração e trabalho anônimo. O engenheiro que calcula, testa, corrige, volta a calcular. Precisa considerar o peso, a potência, a resistência dos materiais, a segurança de quem estará a bordo. Onde o sonhador vê uma possibilidade, ele precisa encontrar um caminho.
Durante aqueles poucos minutos desta semana em Porto Alegre, viajei amparado por uma quantidade imensa de trabalho humano. Ideias, cálculos, tentativas, erros corrigidos. Tudo isso estava ali, embora eu só enxergasse a cidade pela janela.
Talvez por isso aquele pequeno trajeto tenha me levado tão longe. E então pensei nas outras maneiras de ficarmos presos aos solos da vida…
Quantas vezes ficamos presos à gravidade de hábitos que não fazem sentido, a mágoas que nos infelicitam, a medos que nos aprisionam. Quantas vezes concedemos autoridade exagerada a fatos que decidem por nós, e impedem os voos que poderíamos fazer durante nossa existência.
Há dias, em nossas vidas mundanas, em que carregamos tanto peso por dentro do peito que qualquer possibilidade de movimento parece impossível.
Também nesses casos, imaginar pode ser o ponto de partida.
Conseguir conceber uma vida um pouco diferente já abre algum espaço, e depois vem algum trabalho, claro. Uma conversa, uma decisão, um aprendizado, a ajuda de alguém. Cada qual encontra os recursos para sua travessia. Às vezes, subir um pouco já permite perceber um caminho que, lá de baixo, estava escondido.
Não me ocorreu nada disso durante o voo. Eu estava apenas feliz, olhando pela janela, desfrutando um presente inesperado no meio de uma semana de trabalho. Mas agora, ao escrever, percebo como cada acontecimento em nossa vida, por mais singelo que seja, pode nos servir de lição e mudar algo dentro de nós.
Chegamos. O Esquilo pousou, eu desembarquei e fui dar minha palestra. O traslado havia terminado, o assunto era sério, mas o menino ainda estava lá em cima, encantado por ter brincado de passarinho.