# 108 – A tirolesa

# 108 – A tirolesa
A tirolesa
(24/08/2025)

Ontem, desci, ao lado do Erik, a maior tirolesa do Brasil. Ela fica em Pedra Bela – SP, tem 2 km, e a aventura durou 1min20seg. Quando estávamos próximos a saltar, com o equipamento já instalado, alguém perguntou para ele: “você está com medo?“. Ele não disse nem que sim nem que não. Disse apenas “eu estou com meu pai“.

Durante o tempo que durou a descida, vendo sua cara de medo transformar-se na expressão da alegria, meu pensamento não se desviava da frase. Não importava o que ele sentia. Havia algo maior – ele estava ao lado do pai dele.

Naquele instante percebi: a autoconfiança, que mais tarde carregamos como virtude pessoal, é antes de tudo um empréstimo.

No início da vida, não confiamos em nós mesmos – confiamos em alguém. A frase à beira do salto, tinha essa simplicidade inaugural. Não se tratava de ausência de medo.

O medo estava lá, estampado nos olhos. Mas a confiança era maior. Ele não precisava ter certeza do que iria acontecer – bastava saber que eu estava ao seu lado.

É curioso pensar que a coragem, tão celebrada em adultos, nasce da entrega confiante de uma criança. Quando o bebê se lança nos braços da mãe ou do pai, ele não faz cálculos, não avalia estatísticas de risco. Ele apenas confia, e esse gesto primitivo é a matriz de toda segurança interior.

Depois, nas tirolesas da vida, teremos outros provedores de confiança ao lado. O companheiro, o chefe, o colega de trabalho, o parceiro de time. E a nós mesmos, com a autoconfiança saudável.

No livro Sociedade de Confiança (Instituto Piaget, 1997), o sociólogo francês Alain Peyrefitte esclarece: viver em ambientes tranquilizadores, ao lado de pessoas que inspiram confiança, libera nosso melhor, nos torna mais produtivos e com maior bem-estar.

Descer aqueles dois quilômetros suspensos no ar foi, para ele, aventura. Para mim, foi a percepção de que a autoconfiança não é um dom individual, mas uma herança relacional.

Na vida também não controlamos totalmente a descida. Mas, saber que não precisamos saltar sozinhos, é o que nos permite sair da rampa e curtir a jornada de braços abertos.


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O Nascimento da Crônica".