# 72 – Cheiro de podre

# 72 – Cheiro de podre
Cheiro de podre
(08/12/2024)

Como quase todos os humanos eu também tenho sido vítima de um hábito contemporâneo. Minha mão direita ganhou uma nova automação: o mindinho sustenta a base do celular, os três dedos médios o posicionam e o polegar rola a tela para cima, enquanto meus olhos buscam imagens e meu cérebro se distrai. 

Foram bons minutos. Me conectaram com mundo fantástico, divertido, belo, esquisito e até assustador. Só não precisei fazer uma coisa: pensar! Para que, afinal? 

Quando eu leio um livro, preciso criar imagens em minha cabeça. Dar vida aos personagens, imaginar suas expressões, emoções, movimentos. Tudo o que dá plasticidade a meu cérebro, me faz pensar e lidar melhor com o mundo. Mas… para que tudo isso? Atualmente não precisa mais.  

A Universidade de Oxford escolhe, todos os anos, uma palavra, ou expressão, que representa um acontecimento ou uma forte tendência do momento. Uma espécie de “espírito do tempo”. 

Algumas das últimas foram “climate emergency”, “emoji”, “toxic” e “post-truth”.  Pois acaba de sair a deste ano: “brain rot”, ou “cérebro podre”.

Olha, era até de se esperar, considerando que a do ano passado foi “goblin mode”, que indica uma espécie de estado de espírito desleixado, preguiçoso, de alguém que não está a fim de fazer nada, que opta por não se dedicar a nenhum tipo de esforço. 

Um cérebro podre está deteriorado, ou se deteriorando, amolecendo como geleia. Está perdendo as sinapses que conectam os neurônios e mantém o pensamento funcionando. 

O dono de um cérebro podre evita o esforço de pensar, de submeter-se à aventura da crítica e do questionamento. Sua curiosidade é suprida antes de existir, e ele não se dá ao trabalho de estabelecer conexões. Elas já estão feitas. Chegam prontas.

Para esclarecer, não sou contra as redes sociais, e acho que o YouTube é, sim, uma excelente fonte de acesso a informação, inclusive de grande qualidade. 

O problema está, exatamente, nessa facilidade. Informação se confundindo com distração. Cultura com entretenimento. Pensamento com facilidade excessiva. Atrofia mental. Side effect do maravilhoso mundo digital, a realidade inescapável. 

Às vezes é necessária uma desintoxicação. 

E, para o cotidiano, a solução óbvia: comedimento. 

Um ótimo domingo e uma produtiva semana a todos!  


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica