# 109 – Em tese

# 109 – Em tese
Em tese
(31/08/2025)

Nessa sexta-feira, num desses acasos festivos do destino, estávamos em Salvador, e o Ney Matogrosso também. No mesmo hotel e pelo mesmo motivo: trabalho. Só que o trabalho dele, para nós, é alegria, claro. Com alguma sorte dois ingressos surgiram, e lá fomos nós, para o compromisso extra-agenda, na Concha Acústica, atrás do Teatro Castro Alves, a poucos passos do hotel.

Ney nunca é apenas um show. É uma celebração da arte em estado cru e sofisticado ao mesmo tempo, como se o palco fosse um altar, e ele, o sacerdote indomável da liberdade.

Tudo nele emociona e impressiona. Para mim, um fato adicional: ele está com 84 anos, e, em tese, já estaria aposentado. Mas cada gesto dele parece coreografado por uma força maior que não se dobra nem ao tempo nem às expectativas. Ney é, no palco, a prova de que a idade pode ser irrelevante quando se vive com paixão.

Quase no fim, depois de uma sucessão de músicas que pareciam encerrar o espetáculo, Ney surpreendeu a todos com um anúncio direto, bem-humorado e um tanto irônico:

“Pessoal, em tese o show termina aqui. Eu vou sair, vocês vão aplaudir, gritar meu nome, pedir que eu volte. Aí eu vou voltar, cantar mais três músicas e depois encerrar. Então vamos combinar assim: eu canto as três músicas extras já e depois saio e não volto mais. Combinado?”

A plateia riu, aplaudiu, aceitou o pacto. E assim foi. Três canções derradeiras, intensas como um brinde final, e então, o silêncio. Ele cumpriu o combinado, e nós também.

Depois fiquei pensando que talvez a vida se pareça com esse acordo. “Em tese“, sabemos como a vida funciona: nascemos, vivemos, amamos, sofremos, e um dia o espetáculo acaba. E, quando as cortinas baixarem, talvez reste apenas uma mensagem como a do Ney: “Foi assim que combinamos”.

Mas, ainda usando o espetáculo como metáfora, até lá há sempre espaço para alguns “extras”: um amor inesperado, uma amizade que surge, um projeto novo, uma epifania tardia.

Na verdade, um artista como o Ney, sai do palco mas nunca sai de cena. Sua arte permanece dentro de quem o escuta, desafiando o tempo, como um pacto secreto entre a arte e a vida. Em tese, todos podemos, cada um a seu modo, criar nosso próprio combinado, para manter nosso próprio bloco na rua, em nosso próprio tempo.


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica