# 75 – Expectativas!

# 75 – Expectativas!
Expectativas!
(29/12/2024)

Você precisa aprender que as coisas não são como que queremos que sejam. São como são

Quem me disse isso foi uma professora da faculdade. 

E não de filosofia. De microbiologia.

Eu era um estudante secundarista de medicina, e tinha pretensões científicas. Estagiei em vários laboratórios da faculdade, e aprendi muito. Principalmente sobre disciplina, paciência, cuidado e, claro, sobre gestão de expectativas. 

Aquela pesquisa era sobre o presumido poder bactericida dos alcaloides presentes na Ilex paraguaiensis, a conhecida erva-mate, muito usada no sul do Brasil. 

A teoria (ou seja, a ideia concebida a priori), era de que as bactérias não suportariam a alteração metabólica promovida pelo meio de cultura modificado, e morreriam. 

Só que não foi o que aconteceu. 

As bactérias gostaram do chá. Cresceram e se multiplicaram ainda mais rapidamente. Eu até as imaginava sorrindo de satisfação e pedindo mais erva…

Foi quando manifestei minha decepção para a professora Azizi, que orientava meu trabalho. E então tive que ouvir dela que uma pesquisa científica existe para verificar o que acontece em determinada situação, e não para comprovar o que já se achava que ia acontecer. A pesquisa verifica, não certifica. Permite a compreensão dos fenômenos naturais, que têm suas leis próprias, e estão se lixando para nossas opiniões ou desejos. 

Se você quer ser cientista um dia, pare de apenas tentar provar suas teorias – concluiu a mestra.

Nunca esqueci daquela experiência. Aprendi, no laboratório, o significado real e o sabor amargo da frustração de expectativa. 

Eu me lembro daquele acontecimento a cada vez que espero muito por algo, e acontece o oposto. O destino às vezes assume a forma daquela placa de vidro com um círculo avermelhado com pontos brancos que eu levei ao microscópio, para ver as bactérias acenando safadas para meu olho inexperiente. 

Mas… tudo bem. Aquela pesquisa de microbiologia deu origem a outra, de fisiologia, sobre o efeito da erva-mate sobre o metabolismo basal das pessoas, que veio a ser meu primeiro trabalho científico publicado.  

Me lembrei desta história porque estamos para iniciar um novo ano, cheio de expectativas. Darão certo? Torço que sim. Mas se precisar mudar o foco, não pense duas vezes. 

Um ótimo domingo e, claro, um feliz Ano Novo a todos!  


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica