Hoje é domingo de eleições e, claro, pensei em escrever sobre a democracia.
Faria uma visita à Grécia antiga, passearia pela praça de Atenas, discutiria com Platão sobre a ideia do rei-filósofo, citaria a famosa frase de Churchill, lembraria Montesquieu, Bobbio e Karl Popper, e esta crônica seria quase um tratado sobre a difícil arte de vivermos juntos.
Mas confesso que me bateu um certo cansaço, e resolvi poupar meu caro leitor e minha querida leitora desse assunto que já está em todos os lugares.
Então deixo Platão de lado. Mas convido outro grego para este domingo: Arquimedes, o célebre físico e matemático grego. Ele vivia em Siracusa, cidade de origem grega, hoje parte da Itália, no século III antes de Cristo.
E acontece que a Rosa Maria acaba de chegar de lá, e me trouxe um presente inusitado: um Stomachion.
Hein? Você não sabe o que é um Stomachion? Tá, eu explico: é um quebra-cabeça quadrado, formado por 14 peças (triângulos e outros polígonos), estudado por Arquimedes há mais de 2.200 anos.
Os gregos usavam o Stomachion como um brinquedo, pois, com as peças, pode-se formar imagens divertidas, como pássaros, barcos, leões e pessoas. Mas para aquele matemático genial, era um estudo de análise combinatória. Hoje conhecem-se 536 maneiras de montar um quadrado perfeito com as 14 peças.
Eu recebi o presente com alegria e autoconfiança, mas bastou desmontá-lo para perceber que era melhor manter apenas a primeira. No começo, as peças se encaixam e você chega a achar que tem alguma intimidade com Arquimedes. Depois sobra uma ponta, falta um espaço, um triângulo parece ter vindo de outra caixa.
Até agora só consegui uma combinação, que na verdade é a imagem espelhada da original que vem montada na caixa. Ainda chego lá…
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Mas a história mais legal sobre o Stomachion começa agora!
No século X, um copista transcreveu o Stomachion e outras obras de Arquimedes em folhas de pergaminho para deixá-las registradas para a posteridade. Só que, cerca de trezentos anos depois, um monge queria escrever orações, e não teve dúvida: raspou o pergaminho com pedra-pomes e ácido, e escreveu por cima. Esse tipo de manuscrito chama-se palimpsesto – uma superfície na qual se escreve sobre os vestígios de uma escrita anterior.
Não vamos julgar o religioso. Pergaminho custava caro, ele provavelmente não sabia o valor do que tinha nas mãos, e deu uma utilidade que lhe parecia mais nobre. O volume atravessou séculos, passou por bibliotecas religiosas, esteve em Jerusalém e chegou a Constantinopla.
Em 1906, um pesquisador chamado Heiberg percebeu que havia algo por baixo dos textos religiosos, e decifrou uma parte. Muito depois, em 1998, o pergaminho foi arrematado em Nova York por dois milhões de dólares e levado ao Museu Walters, em Baltimore, para ser recuperado.
Usando raios X produzidos num acelerador de partículas, cientistas detectaram o ferro que havia na tinta antiga, os textos de Arquimedes voltaram à vida, e hoje eu tenho nas mãos uma versão do jogo cujo estudo atravessou essa aventura. Rosa Maria me trouxe da viagem uma pequena caixa que, quando eu abri, deixou escapar séculos de uma história fantástica.
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No começo da crônica eu disse que não queria escrever sobre política e democracia, apesar de hoje ser dia de eleições. Mas essa história do apagamento e da recuperação da obra de um grego tão importante para a ciência, de certa forma, traz o assunto de volta.
Afinal, a democracia, também criada na Grécia, entre os séculos VI e V a.C, por figuras como Clistenes e Péricles, e que provou, ao longo de tantos séculos, ser a melhor forma de governo e organização social, também sofreu (e ainda sofre) apagamentos. E, felizmente, também recuperações, inclusive em nosso país, em história não tão antiga.
Sobre o pergaminho original da democracia também foram aplicadas ideias ácidas e, em certos casos, pedras de chumbo, não por monges desavisados, mas por tiranos e ditadores mal-intencionados, muitas vezes com a conivência de outros poderosos.
Mas, em muitos lugares, a liberdade sobreviveu como aquela tinta do matemático genial. Quase invisível, preservada na memória, na conversa baixa, na coragem de alguém, na vontade de um povo, e voltou a ser visível porque houve quem se dedicasse a recuperá-la.
Meu cansaço com a política precisava dessa lembrança.
Continuo olhando as peças de meu Stomachion. São diferentes, têm ângulos incômodos e me obrigam a rever posições que, poucos minutos antes, pareciam definitivas. Para reuni-las, preciso admitir que o encaixe de uma depende do espaço que deixo para outra. E que minha primeira ideia pode estar errada.
Agora vou sair para votar. Depois volto ao meu Stomachion, pois ainda tenho muito para descobrir sobre como fazer as peças – de tantos tipos e tantos jogos – se encaixarem…