Os anjos brincalhões da consciência
(15/12/2024)
– É claro que você pode. Mas você deveria se perguntar se você deve – foi assim que o professor respondeu à minha insolência.
Eu havia perguntado, valendo-me de certa liberdade conquistada com ele, se eu podia assinar a lista de presença por meu colega Roberto, que estava ausente e andava meio pendurado em faltas.
Ambos éramos da turma que tinha que defender uns trocados, e, com nosso espírito transgressor, achávamos normal cobrir a falta um do outro, assinando em seu nome na lista de presença de vez em quando.
Eu não via nada de mal, até aquele dia…
Quando o professor Jorge contrapôs os dois verbos – poder e dever – ele abriu a porta de um dilema moral que eu jamais havia enfrentado conscientemente.
Descobri então que há coisas que nós podemos fazer (basta ter competência), o que não significa que devemos fazer (basta consultar a consciência).
Ainda no século 18, o iluminista Immanuel Kant jogou essa questão em nosso colo, acrescentando um terceiro verbo: o querer.
Sim, o arbítrio é o terceiro no comando.
Se assinasse por meu colega estaria enganando a faculdade, o professor e os colegas presentes. Se não assinasse não estaria protegendo um amigo que estava em dificuldades. E agora?
Parece que dois anjos brincalhões observam nosso comportamento e se divertem com nossos dilemas.
– Aposto uma nuvem que ele não assina, confio em seu caráter – diz um anjo.
– Pois eu aposto minha harpa nova que ele vai assinar, conheço a fraqueza dos humanos – responde o outro.
E assim eles se divertem, nos colocando em ciladas, bloqueando o caminho que já conhecemos só para nos ver procurar outros, como se fossemos cobaias em um laboratório.
Brincadeiras à parte, o poder se subordina ao dever, enquanto o dever depende do poder, e o querer dança com ambos.
Confuso? Talvez, mas a compreensão dessa equação semântica pode nos ajudar a evitar alguns mal-entendidos com o mundo.
Um ótimo domingo e uma produtiva semana a todos!