# 73 – Os anjos brincalhões da consciência

# 73 – Os anjos brincalhões da consciência
Os anjos brincalhões da consciência
(15/12/2024)

– É claro que você pode. Mas você deveria se perguntar se você deve – foi assim que o professor respondeu à minha insolência. 

Eu havia perguntado, valendo-me de certa liberdade conquistada com ele, se eu podia assinar a lista de presença por meu colega Roberto, que estava ausente e andava meio pendurado em faltas.

Ambos éramos da turma que tinha que defender uns trocados, e, com nosso espírito transgressor, achávamos normal cobrir a falta um do outro, assinando em seu nome na lista de presença de vez em quando. 

Eu não via nada de mal, até aquele dia… 

Quando o professor Jorge contrapôs os dois verbos – poder e dever – ele abriu a porta de um dilema moral que eu jamais havia enfrentado conscientemente. 

Descobri então que há coisas que nós podemos fazer (basta ter competência), o que não significa que devemos fazer (basta consultar a consciência).

Ainda no século 18, o iluminista Immanuel Kant jogou essa questão em nosso colo, acrescentando um terceiro verbo: o querer. 

Sim, o arbítrio é o terceiro no comando.  

Se assinasse por meu colega estaria enganando a faculdade, o professor e os colegas presentes. Se não assinasse não estaria protegendo um amigo que estava em dificuldades. E agora?

Parece que dois anjos brincalhões observam nosso comportamento e se divertem com nossos dilemas. 

– Aposto uma nuvem que ele não assina, confio em seu caráter – diz um anjo.

– Pois eu aposto minha harpa nova que ele vai assinar, conheço a fraqueza dos humanos – responde o outro.

E assim eles se divertem, nos colocando em ciladas, bloqueando o caminho que já conhecemos só para nos ver procurar outros, como se fossemos cobaias em um laboratório. 

Brincadeiras à parte, o poder se subordina ao dever, enquanto o dever depende do poder, e o querer dança com ambos.

Confuso? Talvez, mas a compreensão dessa equação semântica pode nos ajudar a evitar alguns mal-entendidos com o mundo.          

Um ótimo domingo e uma produtiva semana a todos!  


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica