# 52 – Paris, não se arrependa

# 52 – Paris, não se arrependa
Paris, não se arrependa
(28/07/2024)

Paris está em festa. Pela terceira vez está sediando as Olimpíadas e resolveu começar diferente, inovando na abertura. Como tudo o que é grandioso, não escapará das críticas, dos questionamentos e dos memes. Mas Paris diz Je m’enfous de toi, e segue a festa.

Aliás, esta crônica não é sobre as Olimpíadas. É sobre algo muito mais próximo de cada um de nós, humanos normais, mortais, e não olímpicos: o arrependimento. 

Vamos a uma história: dois jovens compositores parisienses produziram, em 1956, uma música para uma cantora em ascensão, chamada Rosalie Dubois, como nome “Non, je ne trouverai rien” (Não, eu não vou encontrar nada).

Ela não gostou, e eles resolveram então levar para outra cantora: a pequena, explosiva, temperamental e gigante Édith Piaf.

Pensando na biografia atormentada da artista que começou nas ruas de Paris, decidiram mudar o contexto da letra, e substituíram o verbo “encontrar” para o verbo “arrepender”. Acertaram!

Resumindo, lançada no Olympia em 1960, a música se transformou em uma das marcas registradas de “La Môme Piaf”, talvez maior que La vie en rose. 

Mas, ao lado da voz poderosa da cantora, qual seria a razão para o imenso sucesso da canção? É o fato de que ela coloca o dedo em um de nossos pontos mais vulneráveis: o arrependimento, algo normal em uma personalidade saudável. 

Quem nunca teve que pedir desculpas para alguém, para o mundo ou, para si mesmo, por ter feito algo que depois se mostrou inconsequente e mau? Isso é humano, normal e esperado.

OK, isso é uma coisa. A outra é viver em função desses arrependimentos, usando, o tempo todo, a conjunção subordinativa condicional SE.    

“Se” eu tivesse feito diferente, “se” eu tivesse ido, “se” eu não tivesse titubeado, etc etc. Pense: este “se” nos coloca diante da impossibilidade e do absurdo. 

Sim, pois jamais saberemos como teria sido “se” as coisas não tivessem sido como foram e sim como não foram. Só sabemos que agora seria diferente, mas não se seria melhor ou pior do que veio a ser sendo como foi, e não como não foi.

Observe: quando Édith nos diz que não se arrepende de nada, não está afirmando que nada lamenta, que não reconhece que errou, que só acertou na vida, e que acha que está acima do mal e do bem. Cantando, ela afirma o seguinte:  

“Minhas mágoas, meus prazeres, não preciso mais deles.

Varridos meus amores e meus temores, recomeço do zero”. 

Um ótimo domingo e uma semana maravilhosa!  


Publicado por: Eugenio Mussak

Crônica é literatura? Claro que é! E não afirmo sem prova: nosso primeiro cronista foi Machado de Assis, e a minha primeira foi descaradamente baseada na primeira crônica do bruxo do Cosme Velho, chamada exatamente “O nascimento da crônica